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Qual é o caminho até a cadeira de CEO? No caso de Thiago Muramatsu, foram 17 anos desde o início como trainee até chegar ao cargo mais alto da SYN. Ao conversar com ele, logo se percebe um homem tranquilo, calmo e muito ligado à família. Sua trajetória começou em 2003, quando ingressou na PUC-SP para estudar Economia.
“Me formei em Economia na PUC, aqui de São Paulo, em dezembro de 2007. No último semestre, já prestes a me formar, queria muito entrar em algum programa de trainee. Me inscrevi em vários, fui reprovado em alguns, mas acabei passando em outros. Um deles foi o da Cyrela. Na época, a empresa estava em plena expansão nacional e recrutava trainees também para empresas com as quais mantinha relações. Uma delas era a antiga CCP, hoje SYN. Fui direto para lá e estou desde então — já são 17 anos”, relembra.
Essa é a versão resumida da história. Na prática, Muramatsu já estava inserido no setor imobiliário antes mesmo de chegar à CCP. “Sempre trabalhei com real estate, nunca atuei em outra área”, revela. “Comecei a trabalhar no mercado em 2004, em outras empresas do setor. Já são mais de 20 anos.”
Muramatsu acompanhou sua própria evolução profissional em paralelo à profissionalização do mercado imobiliário brasileiro, especialmente a partir de 2007 e 2008. Foi nesse período que se consolidaram as bases do ecossistema que hoje conhecemos — e que se entrelaça com a trajetória do então trainee recém formado.
“Lembro bem quando começaram a falar em fundos imobiliários voltados para pessoa física. Existiam poucas dezenas de fundos. Acompanhei o nascimento da BR Malls, da BR Properties — empresas que já traziam uma estratégia muito diferente para a época. Lembro que, antes de entrar na CCP, via as aquisições feitas por elas e não conseguia entender como fechavam aquelas contas. Meu primeiro trabalho no real estate foi fazendo avaliação de imóveis na Cushman & Wakefield, e eu pensava: ‘Cara, esses preços não fazem sentido’. Só depois entendi que se tratava de um modelo muito mais sofisticado — com uma cabeça não só imobiliária, mas também financeira. Eram estruturas de negócios mais complexas, que hoje viraram padrão”, diz.
Para ele, a maior transformação do setor veio com a pandemia. “Apesar de todos os desafios nesses últimos 20 anos — impeachment, crises, entre outros —, acho que a pandemia foi o ponto de virada. Não foi apenas um desafio econômico, mas algo que mudou profundamente todos os segmentos: shoppings, galpões, escritórios, residencial, loteamentos... tudo foi impactado. E acho que muitas dessas mudanças vieram para ficar.”
Mesmo sendo discreto e tranquilo, Muramatsu se mostra à vontade ao relembrar os momentos mais desafiadores da carreira. Curiosamente, ele conta que nunca teve como objetivo ocupar cargos de liderança — sua ascensão foi natural. Ainda assim, sua promoção para CFO, ocorrida antes de se tornar CEO, foi marcante.
“Quando o antigo CEO me convidou para assumir como CFO, minha primeira reação foi dizer que não queria. Mas, na mesma conversa, ele acabou me convencendo. Eu tinha uma base sólida em finanças, mas era uma visão muito ligada ao negócio, não algo tão sofisticado como mercado de capitais ou grandes decisões corporativas. Isso me deixou bem ansioso. Assumi o cargo com 32 anos, e muitos dos meus gerentes eram mais velhos e experientes do que eu. Foi o momento em que mais senti medo. No fim, a execução foi mais tranquila do que eu imaginava, porque eu tinha uma equipe muito boa. Criei uma relação de confiança e, a partir daí, todo mundo passou a remar na mesma direção”, lembra, entre risos.
A transição para CEO, porém, foi um passo ainda mais desafiador.
“Eu achei que seria muito mais fácil. Na prática, já liderava mais de 90% das áreas da empresa, conhecia os acionistas, o conselho, conversava com eles de vez em quando. Achei que seria tranquilo. Mas meu primeiro ano foi bem difícil. A gente estava conduzindo o maior negócio imobiliário da história da empresa. Eu tinha 36 ou 37 anos, e muitos ainda me viam como um garoto. A pressão dos acionistas e do conselho foi enorme para fazer o negócio acontecer. A execução foi conforme o planejado, mas o peso da responsabilidade gerou muito estresse. Hoje, aprendi a lidar melhor com esse tipo de situação e a me comunicar de forma mais eficaz.”
Tranquilo por natureza, Muramatsu acredita que parte de sua resiliência vem do apoio da equipe. “Ter uma diretoria com quem posso dividir preocupações e que me ajuda a pensar faz muita diferença. É importante não carregar tudo sozinho. Claro que a responsabilidade final é minha, mas saber que posso compartilhar os problemas e que todo mundo vai abraçar a causa muda tudo.”
Fora do escritório, o executivo encontra equilíbrio em atividades simples. “Gosto de ficar com a minha família e praticar esportes. Às vezes acordo mais cedo para correr, costumo sair do escritório por volta das sete da noite e vou para casa. Janto com meus filhos, fico com eles... Não tenho muito o hábito de sair durante a semana. No fim de semana, aí sim, faço mais coisas. Além da corrida e do crossfit, também coleciono LEGO. Como trabalho com real estate e shopping, acabo gostando de visitar shoppings também. De vez em quando viajo, encontro amigos... Gosto de curtir o momento, sem grandes planos.”
Muramatsu foge completamente do estereótipo de CEO. No imaginário popular, o presidente de uma empresa do setor financeiro da Faria Lima seria uma figura energética, expansiva. Mas ele mostra que o mercado também é feito de perfis discretos, humanos e consistentes. Quem faz o mercado não segue estereótipos.
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