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Ao caminhar pelo Rio de Janeiro, é possível ver um pedaço da história do Brasil, um passado presente por meio de edifícios icônicos e imponentes, os quais abrigavam políticos, músicos e atores, prédios que inspiraram canções, pinturas e filmes. Mas um pedaço dessa história está à mercê do tempo, abandonados e sem cuidados, se escondendo as sombras dos edifícios modernos.
Um levantamento realizado pela Subprefeitura do Centro do Rio de Janeiro, em outubro de 2023, mostrou que, apenas na região central, 158 edifícios estão abandonados e em péssimo estado de conservação – ou seja, impróprios para uso.
Eduardo Paes, atual prefeito da cidade maravilhosa, assinou um decreto, na mesma época que o levantamento da Subprefeitura, que afirmava que imóveis que apresentarem sinais de abandono poderão ser considerados como bens vagos e, num prazo de três anos, passarão à propriedade do município.
Para Douglas Liborio, historiador e pesquisador da Escola do Legislativo da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), a questão do abandono no centro da cidade é o resultado de problemas históricos, os quais vão desde a ida da capital nacional para Brasília, até as políticas públicas mais recentes.
“Vale a pena a gente pensar, principalmente, que esse abandono do patrimônio do centro da cidade gira em torno de uma questão demográfica, econômica e política”, conta Liborio.
O historiador conta que com a movimentação de empresas para São Paulo, entre a década de 40 e 50, foi o catalisador econômico do problema, fazendo com que os espaços vagos fossem ocupados por empresas públicas. Do lado político, a mudança da capital de República, saindo do Sudeste e indo ao Centro-Oeste, levou o poder público federal. Como consequência, houve uma migração de pessoas para a zona oeste da cidade e outros estados também entre os anos 60 e 70, resultando em uma grande queda demográfica.
Na floresta da Tijuca se ergue um imponente esqueleto de 16 andares de um hotel luxuoso, o Gávea Tourist Hotel. Uma década antes do milagre econômico, o empreendimento deveria abrigar a high society carioca dos anos 50, porém o projeto faliu em sua metade e nunca foi entregue.
Já há sete quilômetros dali, a uma quadra da praia, está o Ipanema Plaza Hotel, um ativo que está abandonado em uma região turística. O empreendimento em questão vive um drama desde 2017, após desavenças entre os sócios. Segundo o processo, no qual foi solicitado e negado um pedido de falência, a má administração do empreendimento foi o que causou o fechamento do ativo.
No Leblon, o Hotel Marina mantém suas luzes apagadas. Uma reforma prometia entregar o empreendimento em 2021, mas até hoje as placas de construtoras e arquitetos continuam decorando sua fachada. Questionada pela reportagem, a BHG não respondeu às perguntas e nem justificaram o abandono da obra.
Liborio conta que apesar de serem problemas diferentes, eles são sintomas de um mal que atinge a cidade: a rápida mudança do mercado. Segundo o pesquisador, a rede hoteleira não vem conseguindo se adaptar com as mudanças culturais, econômicas e sociais do segmento, semelhante como o que é visto no centro.
“Eu acho que a gente pode continuar olhando para essa perspectiva histórica. Se você olhar bem outros hotéis que sobraram, eles estão em torno do metrô, por uma questão de necessidade. O Rio de Janeiro é uma cidade que o trânsito não é mais favorável. Todos esses problemas são um reflexo dessa realidade”, relata.
O decreto assinado pelo Eduardo Paes pode ser uma solução, mas até onde? Uma das preocupações de Liborio é o destino desses empreendimentos. Em março, na Praça da República, um imóvel abandonado desabou, não houve feridos, mas não foi a primeira vez que algo semelhante ocorreu.
Em outubro de 2023, ocorreu a queda parcial de outro prédio na Travessa do Comércio, na região do Arco do Teles, que afetou imóveis na região e colocou em risco o conjunto tombado da Praça XV.
“A gente tem um problema muito grande no Rio de Janeiro também, que é o excesso de ações que elas não são sistêmicas. Por exemplo, o nosso parlamento, o nosso legislativo tem tido uma onda de tombamentos de tudo, patrimônio arquitetônico, patrimônio material etc., que não levam a práticas que são exatamente de preservação. Na verdade, você tem uma trivialização do patrimônio do tombamento. O Instituto do Tombamento deveria se atentar na preservação e readaptação dos patrimônios, pensado em uma nova função para eles”, afirma Liborio.
Um dos caminhos a serem seguidos é a readequação dos empreendimentos. O historiador deu exemplo do hotel Glória, que vai se transformar em um empreendimento residencial. Outra medida que vem sendo aplicada é o programa Reviver Cultural, que busca readequar imóveis do centro para se tornarem espaços culturais.
Uma decisão da 6ª Vara Federal do Rio de Janeiro em abril, solicitou ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que restaurem o um empreendimento localizado na Praça da República, número 22, cuja propriedade é da UFRJ e cedido ao Iphan – o prédio apresenta risco de desabamento.











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