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Com o mercado cada vez mais influenciado por tendências como o trabalho híbrido, os empreendimentos de uso misto, os edifícios residenciais com áreas de coworking e os escritórios que incorporam conceitos como biofilia e home-feeling, a linha que separa a experiência profissional da pessoal se torna cada vez mais difusa. Esse movimento levanta uma questão central para o setor: afinal, o residencial e o corporativo podem se fundir?
Para entender se esses dois modelos caminham para uma atuação complementar, absorvendo e reaproveitando atributos positivos um do outro, ou se estamos diante de uma possível fusão estrutural entre os segmentos, além de avaliar os reais benefícios dos ativos de uso misto, o REsource entrevistou Fernanda Rosalem, head de investimentos da Paladin Realty Partners.
Na visão da executiva, a ideia de uma “fusão” completa entre os dois segmentos é mais provocativa do que literal. O que está em curso, segundo ela, é uma aproximação progressiva, marcada por uma troca de atributos, mas sem que cada tipologia perca sua identidade essencial. “Eu não acredito numa fusão entre residencial e corporativo. O que existe é uma aproximação e uma troca de elementos, mas cada um continua com sua função muito clara”, afirma.
Esse movimento tem relação direta com as transformações no modo de trabalhar. O avanço do modelo híbrido mostrou que o escritório não é mais apenas um local de produção, mas um espaço de encontro, cultura e construção de identidade corporativa. “O trabalho híbrido trouxe flexibilidade, não substituição. O escritório continua sendo essencial para cultura, troca e aprendizado”, explica Fernanda.
Nesse sentido, a influência do residencial no corporativo aparece principalmente na busca por ambientes mais acolhedores, humanos e confortáveis, enquanto o residencial passa a incorporar soluções típicas do mundo corporativo, como áreas de coworking, salas de reunião e serviços compartilhados.
Outro fator decisivo para o sucesso desse tipo de empreendimento continua sendo a localização. Para Fernanda, o uso misto só funciona de maneira consistente quando está inserido em bairros que já apresentam uma dinâmica naturalmente multifuncional. “No Real Estate, a localização continua sendo o fator número um. Isso não muda. Você só consegue fazer um prédio de uso misto bem-sucedido se ele estiver em um bairro que já seja multifuncional.”
Esses ativos seguem uma lógica diferente dos grandes edifícios corporativos tradicionais. São projetos mais boutique, com lajes entre 800 e 1.200 m² e cerca de 15 mil m² de área total. “Falamos de escritórios de advocacia, family offices, gestoras, agências de publicidade, empresas que valorizam arquitetura autoral e projetos diferenciados. Não é o perfil das empresas que ocupam andares de 5.000 m² na Faria Lima”, afirma. Trata-se de um público que busca exclusividade, localização estratégica e uma experiência mais personalizada de ocupação.
Do ponto de vista de investimento, Fernanda reforça que o uso misto, por si só, não é garantia automática de maior resiliência. “A resiliência não está em ser uso misto ou não. Está na localização e na qualidade do ativo.” Para ela, os empreendimentos que performaram melhor no pós-pandemia foram aqueles bem localizados e com padrão elevado, independentemente da tipologia.
Ainda assim, ela reconhece que esse formato tende a ganhar espaço no mercado, embora não deva se tornar dominante. “O uso misto vai crescer, mas continuará sendo um nicho estratégico. Não vai substituir todos os outros formatos.”
No fim, a provocação do Fato ou Fake encontra uma resposta de meio-termo: não há uma fusão estrutural entre o residencial e o corporativo, mas uma aproximação cada vez mais evidente. O que se consolida é uma nova forma de pensar o imóvel como parte de um ecossistema urbano mais integrado, onde trabalhar, morar e conviver não precisam estar em mundos separados, mas também não precisam se tornar um só.







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