Eleição derruba juros futuros e aumenta expectativa de reprecificação do real estate
Reação dos juros e da Bolsa amplia expectativa de menor custo de capital, mas mercado ainda condiciona movimento à política fiscal do próximo governo

O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 provocou forte reação nos mercados financeiros e recolocou o comportamento dos juros no centro das perspectivas para o real estate. Flávio Bolsonaro (PL), que recebeu 47,03% dos votos válidos, ficou à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 45,16%, em uma disputa que foi acompanhada por queda expressiva das taxas dos contratos de juros futuros na última segunda-feira (5).
O movimento ganhou força principalmente nos vencimentos mais longos. Na abertura dos negócios, o DI para janeiro de 2035 chegou a recuar cerca de 97 pontos base, para 13,16%, enquanto o contrato para janeiro de 2028 caía 77 pontos base, a 12,735%.
Para o mercado imobiliário corporativo, a perspectiva com a eleição do senador do PL é de uma redução das taxas de juros de longo prazo, o que diminuiria o custo de capital das empresas e alteraria a atratividade relativa dos ativos de maior duração, como imóveis corporativos, shoppings e empreendimentos residenciais.
O movimento, inclusive, já aparece no desempenho das empresas listadas. Ontem (5), as ações de companhias sensíveis aos juros registraram fortes altas. A Cyrela (CYRE3), por exemplo, chegou a avançar mais de 20% durante o pregão, enquanto o índice IMOB, da B3, subia cerca de 13,5% no início da sessão.
“Esse ânimo reflete a expectativa de mudança de governo e de uma condução fiscal mais responsável, o que poderia contribuir para inflação mais controlada e juros menores, principalmente nos vencimentos longos", explica um renomado especialista do mercado de real estate que falou ao REsource sob condição de anonimato.
Para ele, a empolgação do mercado é motivada, além do resultado do primeiro turno das eleições, pela conjuntura, já que dados demográficos continuam bons e a demanda no setor está aquecida.
"Juros futuros chegaram a cair 100 pontos base. Com isso, o custo do financiamento fica mais barato e isso é muito relevante para o mercado imobiliário, que trabalha com longo prazo", afirma a fonte. Questionado sobre a hipótese de Lula virar o jogo no segundo turno, o especialista comentou: "Aí voltamos a como estávamos antes e os papéis devem sofrer novamente", complementa.
A reação também aparece nas análises de instituições financeiras. Em relatório divulgado após o primeiro turno, o JPMorgan elevou as recomendações para Cyrela e Eztec de neutro para overweight, classificação equivalente à compra, e passou a colocar as duas companhias entre suas principais preferências no segmento de incorporadoras.
Segundo o banco, o resultado eleitoral aumentou a possibilidade de uma mudança de governo e, nesse cenário, poderia ocorrer uma compressão dos juros reais de longo prazo, acompanhada de redução do prêmio de risco fiscal e melhora das condições de financiamento para empresas. O JPMorgan estima que uma redução de 1,5 ponto percentual no custo de equity poderia elevar entre 13% e 18% os valores justos das incorporadoras analisadas.
Para o especialista em operações imobiliárias e diretor comercial da IBR Capital, Jonata Tribioli, nos escritórios, juros menores ajudam principalmente na avaliação dos ativos e na volta do capital institucional, mas continuam importando vacância, localização e qualidade dos prédios.
"Eu vejo um real estate o mais animado depois do primeiro turno, mas ainda muito baseado no que se espera que aconteça. Se depois da eleição tivermos uma política fiscal que passe confiança, inflação mais controlada e espaço para os juros continuarem caindo, aí essa melhora começa a sair da Bolsa e chegar de verdade ao mercado", comenta.
Shoppings
A leitura sobre os juros também alcança outros segmentos do real estate. Em análise anterior, o JPMorgan apontava shoppings como Iguatemi, Multiplan e Allos entre os ativos que poderiam se beneficiar de um cenário de queda das taxas, justamente pela sensibilidade desses negócios ao custo de capital e à percepção de risco.
Inclusive, as três empresas reportaram altas ontem, com Multiplan subindo 12,19%, Iguatemi, 10,47% e Allos, 10,03%.
"O mercado está precificando a expectativa de uma condução fiscal mais restritiva e, para saber se isso vai se sustentar, teremos que conhecer equipe econômica, propostas, orçamento, trajetória da dívida e, principalmente, a capacidade de colocar essas medidas de pé no Congresso", diz Tribioli.









