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A retirada de capital estrangeiro da Bolsa brasileira em agosto, R$ 20 bilhões, acendeu um alerta que pode ir além do mercado financeiro. Enquanto investidores reduzem exposição aos ativos brasileiros, algumas multinacionais também começaram a rever estruturas mantidas no país, com fechamento de unidades, concentração de operações e venda de negócios.
No real estate, os efeitos ainda são pontuais. Mas podem demorar mais para aparecer.
Um dos casos mais recentes é o da alemã Haribo. A fabricante encerrou sua operação industrial em Bauru, no interior de São Paulo, juntamente com sua estrutura administrativa. Cerca de 150 trabalhadores foram afetados. A companhia continuará atendendo o mercado brasileiro, mas sem a estrutura produtiva que mantinha no país.
A Toyota também encerrou, em junho, a produção de sua fábrica de Indaiatuba após 28 anos. A montadora continua no Brasil e transferiu a produção para Sorocaba, mas o movimento abandona uma grande estrutura industrial cuja futura destinação ainda precisa ser definida.
Não apenas saídas completas, outros movimentos podem produzir efeitos mais lentos.
A marca de sorvetes premium Häagen-Dazs deixa o Brasil após quase 30 anos e esse caso escancarou a perda de atratividade de companhias estrangeiras no Brasil.
A General Mills, controladora da Häagen-Dazs, decidiu vender sua operação brasileira para o Grupo 3 Corações, o plano estratégico inclui também a venda das marcas Yoki e Kitano ao grupo por R$ 800 milhões. Enquanto isso, a Sanofi negociou a Medley com a EMS.
Apesar disso, as operações continuam funcionando e, portanto, não representam aumento imediato da vacância. Mas processos de aquisição costumam ser acompanhados de revisão de estruturas, sobreposições administrativas e consolidação de operações.
Por enquanto, os principais indicadores imobiliários seguem fortes. Porém, se analisados, é possível notar uma grande saída de empresas estrangeiras.
A vacância dos escritórios de alto padrão em São Paulo permanece baixa, enquanto o mercado logístico opera com taxas ainda menores. Grandes locações realizadas por companhias como Mercado Livre, Shopee e Amazon ajudam a sustentar a demanda.
Mas, segundo a plataforma Market Analytics da SiiLA, é possível ver um padrão. Analisando apenas os seis primeiros meses de 2026, a ID Logistics é a empresa internacional que mais deixou de ocupar, são 33.7 mil m².
A multinacional alimentícia, Dr. Oetker, também registrou uma grande saída, 11.2 mil m². Autozone, Unilever, AT&T e outros também mostram reduções de ocupação.
Com incertezas econômicas, fiscais e políticas aumentando a cautela dos investidores internacionais em relação ao Brasil, decisões sobre novas sedes, fábricas e centros de distribuição também podem ser adiadas.
Um dos exemplos mais claros é a ArcelorMittal. A companhia suspendeu, em 2024, as obras de expansão da usina de João Monlevade (MG), diante de um cenário de menor demanda interna e aumento das importações de aço. Em fevereiro de 2025, a suspensão se tornou definitiva, após a empresa reavaliar as condições de mercado e seu plano estratégico de investimentos no Brasil.
Movimento semelhante ocorreu com a Ardagh Glass Packaging. A multinacional interrompeu a implantação de sua primeira fábrica brasileira, em Juiz de Fora (MG), cuja operação estava prevista para começar em 2024 e gerar cerca de 300 empregos. Recentemente, a Atlas Renewable Energy, controlada pela Global Infrastructure Partners, da BlackRock, suspendeu cerca de US$ 1 bilhão em novos projetos de energia no Brasil, citando as restrições impostas pelo curtailment e pela infraestrutura da rede elétrica.
A chinesa Meituan havia anunciado R$ 5,6 bilhões em investimentos para desenvolver a Keeta no Brasil, mas reduziu o ritmo de crescimento em 2026, com demissões e adiamento da entrada no Rio de Janeiro para concentrar a operação em São Paulo.
No mercado financeiro, a mudança de percepção ocorre rapidamente. Investidores estrangeiros retiraram mais de R$ 20 bilhões da Bolsa brasileira apenas nas primeiras semanas de agosto.
No mercado imobiliário, decisões são mais lentas. Contratos de locação possuem prazos longos, fábricas não são transferidas de uma semana para outra e mudanças de sede podem levar meses.
A deterioração da percepção do Brasil que aparece hoje nos mercados financeiros pode levar mais tempo para chegar aos imóveis. Ainda não há evidências de uma debandada de multinacionais capaz de provocar aumento generalizado da vacância.
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