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Os chips estão dominando os negócios e o cotidiano do século XXI. De mísseis hipersônicos a geladeiras conectadas, tudo depende desses circuitos minúsculos e leves, que se tornaram centrais nos debates sobre cadeias globais de produção e distribuição.
Hoje, nenhum país é capaz de produzir um chip de ponta a ponta. Essa interdependência, antes reconhecida como um sucesso do efeito da globalização, agora expõe uma vulnerabilidade. Os chips são mais do que tecnologia — tornaram-se peças-chave no xadrez político e comercial global.
Antes de chegar a um dispositivo, um chip atravessa fronteiras, indústrias e interesses. Sua jornada começa sob a terra, com a extração de minerais como silício, gálio, germânio, fósforo, boro e tântalo — muitos deles provenientes de países latino-americanos, como Brasil e Peru. Segundo o U.S. Geological Survey, a região fornece cerca de 18% dos minerais essenciais à fabricação global.
No entanto, a força da cadeia produtiva não está na origem dos recursos, mas no controle sobre as etapas seguintes. A concepção e o design dos chips ocorrem, em grande parte, nos Estados Unidos e na Ásia, onde gigantes como Nvidia, Apple e Qualcomm desenvolvem a lógica dos circuitos. A fabricação é dominada por Taiwan, graças à TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company), responsável por cerca de 70% da produção global de chips. Em áreas estratégicas como inteligência artificial e defesa, esse domínio é ainda maior.
A etapa final — montagem, testes e embalagem — é liderada por países como Taiwan, China, Coreia do Sul, Vietnã e Malásia. Nenhum país detém todas as etapas da cadeia. A pandemia, as guerras, os embargos e as tensões no Estreito de Taiwan evidenciaram a fragilidade desse sistema — e acenderam o alerta mundial.
Nas últimas três décadas, a produção de chips migrou do Atlântico para o Pacífico. Em 1990, Estados Unidos e Europa respondiam por 75% da fabricação global. Hoje, esse percentual mal ultrapassa os 30%. A hegemonia é asiática — mas novos polos começam a surgir.
Ainda distante da fronteira da inovação, a América Latina começa a ganhar relevância como elo logístico e fornecedor estratégico. O México, por exemplo, atraiu a Foxconn para construir uma planta dedicada à produção do chip GB200, voltado à inteligência artificial. No Brasil, a Zilia Technologies anunciou um investimento de R$ 650 milhões em produção nacional, enquanto o Senado aprovou um programa de incentivo ao setor de semicondutores.
Segundo dados da SiiLA, nos últimos cinco anos, o número de locatários do setor de tecnologia dobrou no mercado industrial mexicano. No Brasil, o crescimento foi superior a 20%. É um sinal importante — mas não suficiente. Ampliar a ocupação de galpões e integrar-se à logística global é apenas parte do desafio. Hoje, a América Latina extrai o que outros processam, transporta o que outros montam e oferece território sem definir o trajeto.
Além disso, a região abriga vastos parques industriais com potencial para fabricar e distribuir equipamentos em escala global. A logística em si está em constante desenvolvimento nos países latinos. O mercado consumidor, em especial no Brasil e no México, também é valioso. E, aliado a tudo isso, a proximidade com os Estados Unidos — um dos maiores investidores em tecnologia — representa uma vantagem estratégica.
Resta, agora, que os países latino-americanos invistam em inovação e qualificação tecnológica para conquistar protagonismo na nova cadeia global de produção.
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