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Com seca histórica, anos de subinvestimento e mudanças nada boas nas cadeias de suprimentos globais, o Canal de Panamá, ou Pancanal, entra em uma situação crítica. Navios de carga aguardam semanas para conseguir chegar aos seus destinos, aumentando os custos de transporte e gerando problemas para o comércio entre as Américas, Ásia e outros mercados. Com a crise, travessias com duração de até dez horas dobram de tempo.
O problema já é antigo. Em 2023, a hidrovia teve que reduzir o fluxo de navios de 38 para 22 ao dia, por causa da crise hídrica.
Para Jackson Campos, especialista em comércio exterior e Diretor de Relações Institucionais da AGL Cargo, o canal reduz bem o tempo e os custos de transporte entre os continentes, evitando a longa e perigosa rota pelo Cabo Horn, no extremo sul da América do Sul.
“Estima-se que cerca de 6% do comércio marítimo mundial transite pelo canal, evidenciando sua importância estratégica para o fluxo eficiente de mercadorias globais”, comenta Campos.
Para o Brasil, o Canal do Panamá é a opção mais econômica para o comércio com a América do Norte, e a crise tem implicações diretas e indiretas. Campos explica que empresas brasileiras que exportam para a costa oeste dos Estados Unidos ou para a Ásia vão enfrentar atrasos e aumento nos custos logísticos devido à necessidade de rotas alternativas mais longas.
O país tem se preparado após os problemas hídricos no Panamá se tornarem mais graves. O Corredor Ferroviário Bi-Oceânico Central é a aposta que vai conectar os portos atlânticos às costas do Pacífico no Chile e no Peru, passando pela Bolívia.
Dados do Banco Mundial mostram que o Brasil direciona 48% das exportações para a Ásia, 18% para a Europa e 30% para as Américas (17% para o sul e 13% para o norte). Já as importações vêm principalmente da Ásia (41%), América do Norte (23%) e Europa (21%).
Ao The New York Times, Ricaurte Vásquez Morales, administrador do Canal do Panamá, disse que está sendo considerada a criação de um novo reservatório que pode resolver o problema. O plano pode resultar no deslocamento de cerca de duas mil pessoas, pois a ideia é construir a barragem no Rio Índio, ao sudoeste do Lago Gatún, o que inundaria as moradias de pessoas predominantemente pobres.
México e Brasil são os dois países na América Latina que mais possuem uma logística consolidada. Na última década, ambos os países registraram um grande crescimento no setor, impulsionado pela demanda de inquilinos por hubs logísticos e armazéns eficientes.
De acordo com dados da SiiLA, no terceiro trimestre de 2024, o México conta com mais de 96 milhões de m² de espaço industrial de classes A e B, que têm como principais inquilinos empresas atuantes em Manufatura (55%), Bens de Consumo (16%) e Transporte e Logística (9%). No Brasil, o estoque supera 26,8 milhões de m² de imóveis das classes A+, A e B. Os maiores ocupantes deste tipo de ativo no país são empresas atuantes em Bens de Consumo (34%), Transporte e Logística (30%) e Manufatura (15%).
Campos diz que a escassez de capacidade no canal pode elevar as tarifas de frete, impactando negativamente a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional.
“Especificamente para as empresas logísticas brasileiras, a crise exige uma reavaliação das rotas e estratégias de transporte, aumentando possivelmente a dependência de portos e rotas alternativas, o que pode resultar em maiores custos operacionais e desafios na cadeia de suprimentos”, sinaliza o especialista.
José Ignacio Martínez Cortés, coordenador do Laboratório de Análise em Comércio, Economia e Negócios da UNAM (LACEN), diz que fortalecer a infraestrutura e melhorar incentivos fiscais são essenciais para que o México e o Brasil possam aproveitar a oportunidade.
“O grande desafio dos países da América Latina é evoluir de uma economia focada em commodities para uma que promova valor agregado, como já ocorre em economias da Ásia. Assim, México e Brasil podem capitalizar essas vantagens e se estabelecer ainda mais como nós-chave nas rotas logísticas globais, mitigando os efeitos de uma crise que pode perdurar por um longo tempo”, analisa Cortés.
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