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Um dos principais polos econômicos do país, Manaus, está sendo vítima da maior estiagem de sua história. Desde que a medição dos níveis do Porto de Manaus começou a ser feita, há 121 anos, a seca fez os níveis do rio diminuírem até 12,70 metros. O impacto, além de ambiental, também é econômico, prejudicando empresas que utilizam os rios para transporte e pesca.
Com comunidades ribeirinhas isoladas, morte da fauna, aulas canceladas e a inviabilidade de navegação, a região ribeirinha teve sua economia local ameaçada. A seca também afeta a economia dos estados nortenhos, segundo a Associação dos Terminais Portuários e Estações de Transbordo de Cargas da Bacia Amazônica (AMPORT), houve a redução em até 50% na capacidade de carga dos comboios de graneis nos rios da região.
Para Flávio Acatauassú, diretor-presidente da AMPORT, esse fenômeno é consequência da diminuição das chuvas nos rios do baixo Amazonas, uma consequência do El Niño, fenômeno causado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e Atlântico Tropical Norte.
“Os rios do baixo Amazonas, como é o caso do Tapajós, dependem das águas das chuvas para aumentar a vazão e qualquer estiagem impacta severamente na diminuição do nível da água disponível. Diante disso, estamos adotando algumas medidas sérias para otimizar a navegação na localidade, procurando causar o menor impacto no transporte de cargas para o Brasil e para o exterior”, explica Acatauassú.
O impacto da crise hídrica já está sendo sentida na região. A fabricante de produtos eletrônicos, TCL SEMP, afirmou que, para reduzir os efeitos negativos, suspenderam as operações temporariamente.
“Devido à seca na região amazonense, as operações da TCL SEMP estão suspensas no momento. As atividades da empresa devem retornar em breve, a fim de gerar o menor impacto possível no recebimento e envio de produtos e o cenário atual não afeta o período da Black Friday – uma vez que a preparação para a data foi feita com antecedência”, conta por e-mail para a equipe do REsource.
A varejista Magazine Luiza (MagaLu) informou que adiantou o abastecimento de eletrodomésticos na região, a fim de garantir que a seca não afete a logística de entrega, principalmente de itens como televisores e ar-condicionado.
No mercado mapeado pela SiiLA, empresa de análise de dados do mercado imobiliário, a região possui três condomínios logísticos classe A+, o Distribution Park Manaus I, II e III, no qual abriga empresas como Mercado Livre, Honda, Carrefour e outras.
Além disso, segundo a plataforma GROCS da SiiLA, os shopping centers da região norte contam com um aumento das vendas. Hoje, os empreendimentos classe B, maioria na região, faturam em média R$ 1.630,75/m², valores que podem ser afetados por conta da estiagem na região.
“O aumento de preços é bastante possível pelas questões de escassez dos produtos ao consumidor final, pelo encarecimento da logística e transporte dos materiais da Zona Franca até os centros de distribuição. Esse cenário se deve ao modal amplamente utilizado na região, que enfrenta os problemas decorrentes da estiagem. Podem, portanto, haver acréscimos nessa tratativa comercial B2B, que afetem o comércio B2C”, conta Rodrigo Bandeira, vice-presidente da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm).
Bandeira também alerta que os riscos da estiagem podem afetar não só a região amazonense, mas sim todo o território brasileiro, visto a importância que a área industrial possui no cenário econômico e industrial brasileiro.
“A Zona Franca de Manaus produz muitos componentes eletrônicos e, consequentemente, interfere em muitos dos segmentos mais buscados pelos consumidores, sobretudo com a proximidade de datas importantes como Black Friday e Natal. Localmente, o que mais deve ser sentido é com relação ao desabastecimento, ou seja, falta de insumos, componentes e matéria-prima para a fabricação de novos produtos”, conta.
Empresas que atuam no transporte de cargas pelas vias fluviais do rio também estão preocupados com a estiagem. O Grupo Mega, umas das principais empresas que atuam no transporte fluvial, conta que está precisando se adaptar nesse período, como diminuir a carga dos navios e aumentar a quantidade de embarcações na água, para dar conta das demandas.
“Durante os carregamentos dos navios tivemos muitas barcaças com pouca carga, o que fez com que as pranchas diárias fossem prejudicadas, pois trabalhamos muito tempo fazendo rechego das barcaças, quando colocamos as pás carregadeiras em seu interior, então isso baixou a nossa performance”, conta Fernando Pinho, gerente de operações do Grupo Mega.
Com pontos mais delicados para a navegação, Pinho explica que a operação na cidade paraense de Santarém, local onde o Rio Tapajós se encontra com o Amazonas, foi uma das mais difíceis e críticas nesse período. O município foi um dos mais afetados durante a estiagem desse ano. A região turística de Alter do Chão, conhecida como “Caribe Brasileiro”, teve suas paisagens transformadas por conta da seca.
“A operação mais crítica, onde ficou difícil operar foi o navio em Santarém, onde estava planejado fazer o carregamento por terra, porém a baixa do rio impediu que as embarcações se aproximassem do porto onde seria carregado, o que obrigou o exportador a usar 6 balsas, uma atrelada à outra, para que desse profundidade mínima para que a nossa balsa com o guindaste MHC, e as barcaças, não encalhassem. A operação foi bem restrita por causa disso. Tivemos episódios de encalhe nessas condições e tivemos que ir ajustando diariamente de acordo com o nível do rio”, relata.
Na entrevista ao REsource, Pinho afirma que custo de navegação aumentou em 30%. Em setembro o movimento foi 50% abaixo do esperado e em outubro 25%. A empresa, que conta com 10% das exportações do Arco Norte, contou que aproveitou esse período para fazer as manutenções anuais em suas embarcações e que pretendem investir em soluções para evitar crises semelhantes no futuro, como adquirir um tombador flutuante para Santarém.
O vice-presidente da ABComm explica que é necessário que haja alternativas e estratégias emergenciais para situações como essa, mesmo que isso encareça os produtos.
“Estratégias alternativas são o foco principal, até mesmo as que envolvam implementar outros modais. Por conta da urgência, é um assunto prioritário que necessita de resolução, mesmo que encareça o frete logístico. Do lado das empresas, principalmente as que atuam em outros segmentos e não dependem tanto da ZF, a expectativa é que concentrem esforços em categorias como moda, beleza, cosméticos e esportes”, aconselha.







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