Empresas chinesas como BYD encontram no Brasil potencial para produtos e soluções de energia verde
- Segundo executivo da BYD, o brasileiro está preocupado com o meio ambiente e a transição energética
- Empresa vem investindo pesado em carros elétricos, baterias e outros insumos

Nos últimos anos, vimos gigantes asiáticas desembarcando no Brasil, como Shopee, TikTok, BYD, Huawei e outras, em uma grande movimentação que podemos chamar de segunda onda. A primeira ocorreu nos anos 80 e 90, com as japonesas Honda, Nintendo, Sony e outras. Em 2024, são as empresas chinesas que vêm movimentando a economia local.
A parceria não é unilateral. Em abril de 2023, o governo brasileiro firmou diversos acordos entre empresas brasileiras e chinesas, incluindo empresas como JBS, Odebrecht, Eletrobras, BMV, Vale, Suzano, entre outras do lado brasileiro, e, do lado chinês, a Power China, Jac Motors, HRH, Bank of China, Tianjing Food Group, SPIC, entre outras.
Tal acordo vai impulsionar, principalmente, o setor de energia renovável, com destaque para o acordo envolvendo Petrobrás, SPIC, Power China e Bank of China. A sustentabilidade é um dos focos chineses, não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina.
Uma pesquisa realizada pela Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec) a pedido do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS) em 2023 revelou que 52% dos brasileiros estão muito preocupados com o meio ambiente. Essa preocupação é vista como uma janela de oportunidade, visto que a pesquisa mostrou que 56% das pessoas deixariam de usar um produto que prejudica o meio ambiente e que 12% já utilizam energias renováveis e não poluentes.
Para Alexandre Baldy, conselheiro especial da BYD, montadora 100% focada em veículos elétricos, o brasileiro está preocupado com o meio ambiente e a transição energética, e isso já pode ser sentido dentro dos negócios da empresa. “No Brasil, os consumidores já possuem esse comprometimento e enxergam a real possibilidade de comprar um carro elétrico que alia sustentabilidade, conforto, tecnologia e economia”, conta o conselheiro.
O espaço deixado pela Ford foi ocupado pela empresa chinesa. Em outubro de 2023, a BYD comprou a antiga fábrica da montadora norte-americana, em Camaçari, Bahia. Na época foi anunciado um investimento de R$ 3 bilhões, além da fábrica, a companhia ocupa o Condomínio Multitech, na cidade de Campinas.
Desafios
Apesar do crescimento no investimento na América Latina, a economia chinesa vem sofrendo devido a uma crise imobiliária. Segundo o Goldman Sachs, o crescimento anual do país asiático pode cair de 4,5% este ano para 3,7% em 2027. Apesar disso, o governo e empresas vêm fechando parcerias, que consequentemente podem frear essas quedas.
Segundo o ministro do Comércio da China, Wang Wentao, durante a 13ª Conferência Ministerial da OMC, o país está empenhado em cumprir as metas da Agenda 2023 da ONU e auxiliar as nações a alcançarem o progresso econômico e industrial.
Para o doutor em Relações Internacionais pelo IRI-USP, Especialista Não-Residente da Observa China e Ex-Consultor Jurídico do Banco da China, Alexandre Coelho, as empresas chinesas veem a América Latina como um ponto estratégico para expansão comercial e política, pois é uma região com abundância de recursos naturais.
“As empresas chinesas, e asiáticas no geral, têm focado consideravelmente na América Latina por uma série de razões estratégicas. Primeiramente, a região oferece uma abundância de recursos naturais que são essenciais para a expansão econômica da China e de outros países asiáticos. Isso inclui minérios, petróleo e commodities agrícolas, todos necessários para sustentar o crescimento industrial e alimentar a população asiática. Além disso, a América Latina representa um mercado emergente com uma classe média crescente, apresentando oportunidades para empresas asiáticas em setores como tecnologia, infraestrutura e energia renovável”, afirma.
Coelho ressalta também que, além do fator econômico, o avanço comercial sobre a América Latina beneficia a geopolítica chinesa. O aumento na influência na região permite que a China ganhe aliados políticos e reduza a hegemonia norte-americana.
“Isso também pode ser parte de uma estratégia mais ampla para criar uma rede global de parceiros comerciais que apoiem as ambições internacionais da China, como a iniciativa "Belt and Road". Além disso, ao diversificar seus parceiros comerciais, a China pode reduzir sua dependência de mercados tradicionais e minimizar os riscos associados às tensões comerciais e políticas, como as experimentadas na relação sino-americana”, complementa.
A produção de baterias, seja para pilhas comuns ou baterias de carros, depende do lítio. Segundo um levantamento da Elements, a necessidade mundial de lítio aumentou 283% entre 2010 e 2021.
Segundo o relatório do Sumário de Commodities Minerais do Serviço Geológico dos Estados Unidos de 2023, o Chile possui 33,2% das reservas mundiais de lítio economicamente viáveis, enquanto a China possui 7,6%. Além do Chile, a Argentina e o Brasil também aparecem na lista, com 12,8% e 1,3%, respectivamente.
“A crise imobiliária chinesa é um problema complexo que envolve questões estruturais profundas na economia chinesa, como o alto nível de endividamento das empresas e dos consumidores. Portanto, enquanto os investimentos na América Latina podem oferecer algum alívio, eles não são uma solução completa para os desafios econômicos mais amplos da China”, finaliza Coelho.
No Brasil
O conselheiro da BYD, Alexandre Baldy, afirma que a empresa vê que o mercado sul-americano possui potencial de crescimento, principalmente com o programa de valorização da indústria nacional por parte do governo brasileiro.
“Enxergamos a América do Sul como um mercado em potencial para a BYD e para a transição energética; e o nosso plano é que, além do Brasil, os veículos fabricados aqui possam também ser exportados para os países vizinhos. O crescimento da BYD no país converge com os objetivos do programa de valorização da indústria nacional. A companhia entende que esse movimento comercial, o crescimento do varejo e o acolhimento da marca contribuem para investimentos ainda maiores no país, com reflexos positivos para os parceiros comerciais da América do Sul”, explica Baldy.
Na última quarta-feira (28), a empresa realizou o lançamento de seu novo veículo elétrico popular, o BYD Dolphin Mini. Baldy afirma que o mercado chinês de automóveis atingiu um nível alto de maturidade e que a BYD pretende “liderar a transição da eletrificação no transporte









