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Durante anos, projetos imobiliários seguiram uma fórmula relativamente padronizada: paleta de cores neutras, áreas comuns semelhantes e conceitos replicados em larga escala. Esse modelo, no entanto, começa a perder espaço diante de uma mudança no comportamento do consumidor, que busca cada vez mais ambientes com identidade própria — e que entreguem algo além da função básica de uso.
Para a professora, pesquisadora, arquiteta e fundadora da Pon.to Arq, Isabela Baracat, os “empreendimentos imobiliários não podem mais ser neutros”. Segundo ela, a transformação está diretamente ligada à forma como as pessoas passaram a consumir experiências e a se relacionar com os espaços físicos em um mundo cada vez mais digital.
“Quanto mais neutralidade eu tiver, menos interesse de um determinado público eu vou gerar. As pessoas querem se identificar com os lugares, sentir pertencimento”, afirma.
A tendência já é visível em setores como gastronomia e entretenimento, onde bares, restaurantes e eventos se posicionam a partir de estilos e comunidades específicas. No mercado imobiliário, o movimento começa a ganhar força principalmente no desenho das áreas comuns e na própria concepção dos empreendimentos.
De acordo com Baracat, a lógica de repetição, uma linha de produção quase nos moldes fordistas, acabaram transformando muitos ativos em produtos semelhantes entre si. “Muitas vezes os projetos viram commodity, quase cópias uns dos outros, sem considerar de fato quem é o público que vai utilizar aquele espaço”, diz.
Após um longo período dominado pelo minimalismo, novas propostas vêm ganhando espaço, com maior uso de cores, texturas e elementos visuais mais marcantes, ainda que a especialista ressalte que autenticidade não significa abandonar um estilo específico.
“A questão não é substituir uma estética por outra, mas entender o público. Para algumas pessoas, o minimalismo ainda é a expressão de autenticidade”, explica a pesquisadora.
Esse movimento também se intensifica no mercado corporativo, especialmente após a pandemia e a consolidação do modelo híbrido de trabalho. Com funcionários mais seletivos em relação ao deslocamento até o escritório, empresas e proprietários de edifícios passaram a buscar formas de tornar esses espaços mais atrativos.
Essa mudança já é percebida na gestão de edifícios corporativos. Para Ricardo Loducca, responsável pela área de escritórios da SYN, o conceito passa por inverter a lógica tradicional do home office.
“A gente costuma dizer que, em vez de ‘home office’, é preciso pensar em ‘office home’. Ou seja, trazer para o escritório parte da conveniência que a pessoa tem em casa”, afirma.
Segundo o executivo, a localização continua sendo um dos principais fatores na escolha de um imóvel corporativo, mas deixou de ser suficiente por si só. A competitividade do mercado exige a incorporação de serviços e experiências que incentivem a presença física e reforcem a cultura das empresas.
“Você precisa do ambiente de um jeito que a pessoa queira estar ali. Quando você acopla serviços, amenities e conveniência, consegue atrair mais gente e gerar engajamento”, diz.
Na prática, esse diferencial nem sempre está em grandes intervenções, mas em ajustes operacionais e na qualidade do serviço. Vagas de estacionamento mais confortáveis, bicicletários bem estruturados e serviços de concierge são exemplos de soluções que, embora simples, impactam diretamente a experiência do usuário.
“O edifício em si, o tijolo e o lobby bonito viraram commodities. O diferencial também está no serviço”, afirma Loducca.
A construção de identidade dos empreendimentos também passa por um planejamento estruturado. Segundo o executivo, o primeiro passo é entender o perfil dos inquilinos e, em seguida, o comportamento dos usuários desses espaços.
“É a partir disso que você define quais serviços e facilidades fazem sentido. A identidade do ativo vem dessa combinação entre o perfil das empresas e das pessoas que usam o edifício”, explica.
Em edifícios corporativos de alto padrão, essa personalização tende a ser mais sutil, refletindo o perfil dos ocupantes. Já em ativos monousuários, como sedes de empresas de tecnologia, há maior liberdade para customização completa dos espaços.
Além disso, práticas já consolidadas no varejo começam a ser incorporadas ao universo corporativo. Com experiência de quase duas décadas no mercado de shopping centers, Loducca destaca o papel do relacionamento e da ativação de marcas como diferenciais competitivos.
“Hoje conseguimos levar marcas que estão nos shoppings para dentro dos escritórios, criando experiências e serviços para os usuários. Isso gera conveniência e aproxima o empreendimento das pessoas”, afirma.
A integração entre diferentes usos, como escritórios, varejo e serviços, também aparece como um dos caminhos para reforçar a atratividade dos empreendimentos. A pesquisadora, Isabela Baracat, cita como exemplo projetos internacionais que combinam moradia, comércio e experiências urbanas em um mesmo ativo.
“Quando você pensa o imóvel de forma multidisciplinar, considerando também o entorno e as experiências que ele oferece, cria um ecossistema que valoriza o empreendimento”, afirma.
Para a especialista, a busca por identidade e experiência não deve ser encarada como uma tendência passageira, mas como uma transformação estrutural do setor.
“As pessoas querem estímulos, querem viver experiências. O ambiente em que estamos precisa nos provocar e nos inspirar”, diz.
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