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Esta semana, em mais um conteúdo especial para o Mês da Mulher, o REsource traz uma entrevista exclusiva com Roberta Tedesco, Sócia de Real Estate e Avaliação de Ativos da EY Brasil. Engenheira Civil, pós-graduada em Avaliações e com MBA em Administração de Empresas e Real Estate, Roberta lidera o Professional Women’s Network (PWN), programa global da consultoria, responsável por implementar diversas ações e iniciativas de gênero.
No último ano, a EY foi reconhecida a melhor empresa com práticas focadas em lideranças femininas e interseccionalidades, no Prêmio Mulheres na Liderança da WILL (Women in Latin America Leadership) e Valor Negócios, além de estar presente entre as melhores colocações nos rankings de diversidade do Great Place To Work.
Na entrevista, Roberta conta sobre sua jornada no mercado imobiliário, compartilha insights valiosos, bem como os desafios enfrentados ao longo da carreira, não só pela questão de ser mulher. Ainda muito jovem, aos 23, ela superou um câncer e alguns anos depois, após a maternidade, cogitou deixar o setor. Na sequência, uma oportunidade na EY fez com que a executiva não só continuasse uma trajetória brilhante na indústria, mas contribuindo para a inclusão feminina. Confira o bate-papo:
REsource: Como foi sua entrada no mercado de Real Estate?
Roberta Tedesco (RT): Minha história no Real Estate teve como porta de entrada a área de Avaliações Imobiliárias, ainda na faculdade e atuando como estagiária em Peritos Judiciais – Engenheiros Civis, experts em avaliações imobiliárias para finalidades diversas, como a execução de garantias imobiliárias ou avaliação de massas falidas.
Depois de uma pausa obrigatória por um ano – para dedicar-me a um tratamento de um câncer aos 23 anos –, busquei me realocar no mercado e voltei para área de Avaliações Imobiliárias, mas, dessa vez, trabalhando em uma empresa, onde as finalidades eram ainda mais diversas e passei a ter uma visão mais aprofundada sobre o mercado imobiliário.
Em 2011, entrei como gerente na EY, ainda focada nas avaliações do patrimônio das companhias (incluindo imobiliários), porém ampliando a atuação ao grande movimento do mercado no Brasil com o boom dos Fundos de Investimento Imobiliário (FII) que passavam a ganhar ainda mais força, inclusive pela melhoria acerca dos regulamentos junto à CVM (Comissão de Valores Mobiliários). Neste sentido, a visão regulatória exigiu ainda mais da Avaliação Imobiliária para marcação a mercado destes FIIs.
Em 2019, tive a oportunidade de desenvolver a área de Real Estate da EY como está hoje, para além das avaliações imobiliárias, fortalecendo serviços e soluções extremamente relevantes para o Mercado Imobiliário, com estudos de vocação, estudos de viabilidade, masterplan/business plan, planos de estruturação imobiliária, entre outros. Tive a oportunidade de participar de projetos como o Consórcio que estruturou a modelagem que trará de volta à cidade do Rio de Janeiro o antigo “Canecão”, projeto de tamanha relevância para a Cultura do nosso país, a Revisão do Plano Diretor de Porto Alegre, que nos gerou um profundo estudo sobre Cidades Sustentáveis e O papel do Plano Diretor na construção de um futuro sustentável.
REsource: Quais foram os principais desafios que você enfrentou ao longo da jornada até aqui? Houve alguma dificuldade relacionada a gênero?
RT: São várias as dificuldades relacionadas a gênero enfrentadas pelas mulheres durante a carreira. Isso tende a ficar ainda mais crítico em setores em que elas ainda estão sub-representadas, como tecnologia, finanças e engenharia (em que se encaixa o Mercado Imobiliário). Posso elencar algumas dessas dificuldades, como o gap salarial com o mesmo nível de experiência/educação e funções, ter menos oportunidade de carreira por pressão em assumir papéis e responsabilidades considerados mais adequados para homens, ou, ainda o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.
Me marcou muito uma passagem que me fez quase desistir e mudar de carreira. Eu era uma profissional muito sênior na companhia, gerenciava equipes e projetos diversos com resultados muito relevantes, porém sem conseguir atingir o próximo nível da carreira. Me sentia congelada no meu cargo, apesar de estar assumindo as funções do step seguinte, vendo meu colega homem com visíveis gaps de liderança assumindo a gerência da área, e me dei conta de que estava vivendo o famoso “teto de vidro”. Depois do nascimento da minha primeira filha, decidi que precisava mudar de carreira, fui estudar e fazer uma nova pós-graduação totalmente fora da minha área, com o objetivo de mudar e recomeçar se fosse necessário, mesmo com ela ainda muito bebê.
Foi uma etapa difícil, mas tamanha era a vontade de sair daquilo que imaginava que o Real Estate não era mais uma opção e a única forma era a mudança radical. Por fim, tive a oportunidade de encontrar meu espaço na EY, sem precisar abandonar minha carreira e pude desenvolver minha jornada me tornando Sócia responsável pela área de Real Estate dentro da área que denominamos de Estratégia e Transações.
Na EY, também passei por desafios, mas a equidade de gênero é assunto prioritário e me lembro da dificuldade de me introduzir nas bolhas masculinas quando em 2012 me tornei a primeira Gerente Sênior mulher, entre os 10 homens Sócios, Diretores e Gerentes sênior, mas foi o início de uma grande transformação que tenho orgulho de fazer parte. Hoje nessa mesma área, somos 11 mulheres do total de 22 Sócios, Diretores e Gerentes sênior. Além disso, tenho uma equipe de mais de 50 profissionais diretos, sendo 50% de mulheres, e todas inseridas em um ambiente inclusivo que permite que trilhem seus caminhos de sucesso.
REsource: O mercado de real estate ainda tem forte predominância masculina, como você acredita que podemos ter mais equidade de gênero no setor?
RT: A equidade de gênero não é apenas um problema de direito humano ou das minorias atingidas – no caso, a mulher - mas também uma questão de desempenho empresarial. Construir um ambiente inclusivo é muito valioso para nossas pessoas e também para nossa companhia. Quanto mais pertencerem, maior é a energia, o engajamento e a produtividade, e ainda enriquece nossos serviços e nossas soluções através de diversidade de ideias, de pontos de vista e de tomadas de decisões mais inovadoras.
É fundamental compreender que a construção de ambientes inclusivos e diversos é um papel de todos e das pequenas ações em nosso dia a dia, que são capazes de promover a cultura de respeito. Considero muito importante trabalhar com uma visão ampla sobre Recrutamento, Retenção, Desenvolvimento e Ascensão.
Recrutamento: através de parcerias com Escolas e Universidades na busca por profissionais do setor. É muito fácil colocar a culpa na falta de mulheres no mercado de trabalho, portanto, dar um passo antes e buscá-las em suas escolas e universidades é uma solução.
Retenção: através de um ambiente inclusivo. O setor precisa estar atento a ações de aculturamento (educação e sensibilização) sobre a importância da equidade de gênero e os vieses inconscientes tão presentes do dia a dia. É preciso trabalhar com incentivos e benefícios, como a licença parental ou a flexibilidade de trabalho.
Desenvolvimento: através da criação de programas de mentoria ou redes de apoio para mulheres na indústria de Real Estate.
Ascensão: através de metas claras e acompanhamento, indicadores que garantam que iniciativas de gêneros estão realmente cumprindo com os compromissos de empresas que estão dispostas a transformação.
REsource: Como a presença feminina tem impactado e transformado a EY? Há dados a respeito de equidade de gênero da companhia?
RT: De acordo com o 17º Global Gender Gap Index do Fórum Econômico Mundial, estima-se que, seguindo o ritmo atual, demoraríamos cerca de 131 anos para atingir a paridade de gênero. Na EY Brasil, quase metade de nossa população (49,94%) são do gênero feminino, e a busca pela representatividade em cargos de liderança é uma prioridade para nós.
Em 2019, estabelecemos a meta de atingir um percentual feminino de 30%, até 2025, em nossas posições de alta liderança, que abarca pessoas sócias e diretoras. Quando firmamos a meta, tínhamos 22% e hoje, 5 anos depois, alcançamos 28,8%, um crescimento de 6,8 pontos percentuais. Resultado que nos deixa satisfeitos e motivados para seguir aumentando a participação das mulheres em nossa governança.
Há 5 anos também definimos a meta de ter 45% de mulheres em posições de Gerente Sênior. Em 2019, contávamos com cerca de 37% de representatividade e, com muita satisfação, chegamos nesse ano de 2024 em 47%, um aumento significativo de 10 pontos percentuais. Celebramos essa conquista coletiva, muito importante para nossa jornada contínua e que nos deixa mais próximos da paridade.
Temos um programa global, Professional Women’s Network (PWN), que implementa diversas ações e suporta outras iniciativas de gênero, dando voz e estabelecendo uma rede de apoio às nossas mulheres.
A presença feminina tem desempenhado uma importante contribuição na EY em termos de promover a diversidade e inclusão, gerar ideias inovadoras, melhorar o desempenho e a competitividade. Através do Fórum de Mulheres EY, por exemplo, a empresa vem criando um ambiente onde a equidade de gênero é continuamente discutida e incentivada pela alta liderança.
Há áreas, no mercado como um todo, em que a presença das mulheres ainda é baixa por questões estruturais, além da falta de oportunidades e incentivo. Uma delas é a que chamamos de STEM, englobando Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática. Nesse sentido, investimos no programa interno da EY chamado Women in Tech (WIT), que já impactou mais de 10 mil vidas. O WIT possui diversas iniciativas, como mentorias com ONGs parceiras, campanhas para educar e engajar meninas, palestras em universidades para apoiar mulheres nessa carreira, a campanha Vista Essa Causa em que realizamos a venda de camisetas para inspirar a carreira de mulheres em tecnologia e que o valor é revertido para a Ong Inspiring Girls e muitas outras.
Dentro deste movimento, temos o Programa de Trainees Women in Tech, iniciativa com foco em enfrentar o desequilíbrio na atração de jovens talentos das carreiras STEM. No primeiro ano do programa, o resultado foi o aumento de mulheres trainees em posições de tecnologia em 20 pontos percentuais, subindo de 26% para 46%. Em 2022, tivemos 36% de contratações e, no ano passado, chegamos ao marco de 73% de mulheres contratadas pela iniciativa.
Em suma, a presença feminina na EY tem enriquecido a diversidade de pensamento, competências e experiências, culminando em soluções mais abrangentes e inovadoras para os desafios comerciais. A empresa está fortemente comprometida em continuar a impulsionar a equidade de gênero em todos os estratos de sua organização.
REsource: Que conselho você daria para mulheres que estão começando suas carreiras no mercado imobiliário?
RT: Como já dito por Sócrates: “O segredo da mudança é focar toda a sua energia, não na luta contra o antigo, mas na construção do novo”. É possível ver um mundo em transformação, há empresas e ambientes de trabalho que já estão muito comprometidos com a equidade de gênero, portanto, busquem empresas e relacionamentos que tenham valores conectados com os seus. Saibam que ainda irão se deparar com armadilhas culturais e vieses inconscientes, de uma liderança ainda massivamente masculina, porém, é preciso estarem preparadas para esse desafio.
Sejam autoconfiantes e reconheçam seus talentos – sem que a síndrome do impostor as persigam; tenham o controle sobre sua carreira, sejam persistentes e assumam desafios; construam relações, busquem por mentores, patrocinadores e aliados durante sua carreira; comuniquem-se e desenvolvam suas habilidades de negociação; criem um equilíbrio entre vida pessoal e profissional; celebrem suas conquistas, e sejam felizes e tenham amor pelo que fazem.
REsource: Há alguma liderança feminina que te inspira?
RT: São várias as lideranças femininas inspiradoras, com trajetórias de muita luta e rompimento de barreiras. Poderia dar centenas de exemplos de inspirações, para cada aspecto e momento diferente que enfrentei em minha vida. Minhas referências familiares, bisavó, avó e mãe – mulheres incríveis que cada uma em sua época quebraram paradigmas, dos quais me orgulho e sou história.
Quando recém-chegada na EY, minha filha Letícia tinha 1 ano e 4 meses e descobri que estava grávida da Luana, minha segunda filha. Neste momento, muito recente na empresa e ainda muito sensibilizada com minha busca por um recomeço de carreira, tive como inspiração uma Executiva da área de M&A (fusões & aquisições) - Marina Martins, na época estava grávida e me dava sinais de que a maternidade e o trabalho na EY eram compatíveis. Eu não a conhecia, ela era de outra área co-ligada a minha, mas a maternidade nos aproximou e ela se tornou sócia da EY e liderou um lindo programa na EY de mulheres empreendedoras no qual pude participar.
Foi nesse ano que tive a oportunidade de conhecer um pouco mais da história de Luiza Helena Trajano, outra grande mulher inspiradora, que é mentora do programa da EY, presidente do conselho de administração do Magazine Luiza e uma das fundadoras do Grupo Mulheres do Brasil.











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