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É normal que modelos estruturais de negócios tradicionais passem por problemas, isso trás inovação e remodelação, porém algumas empresas nadam contra a maré, ao tentar se inovar.
Mesmo com resultados operacionais considerados bons, empresas como CBRE e JLL enfrentam um choque de confiança que vai além da queda dos negócios: investidores começam a questionar se o setor, como foi desenhado nas últimas décadas, segue economicamente defensável em um mundo de inteligência artificial, automação e mudança nas demandas por escritórios tradicionais.
O sinal mais claro veio do mercado de capitais. Nas últimas semanas, ações de corretoras imobiliárias sofreram vendas agressivas, eliminando dezenas de bilhões de dólares em valor de mercado, mesmo após a divulgação de balanços que, no papel, não indicavam colapso iminente.
O caso da CBRE é o exemplo mais emblemático. A companhia reportou receita recorde, lucro acima das estimativas e crescimento de dois dígitos em 2025, mas ainda assim teve suas ações duramente penalizadas, em uma reação que sugere exaustão com a narrativa tradicional do setor.
Segundo reportagem do The Wall Street Journal, a onda de vendas de ações reflete um medo cada vez mais explícito: a desconfiança perante a inteligência artificial dentro do real estate.
O discurso oficial das empresas tenta minimizar o risco. Executivos insistem que a IA não substituirá corretores, que o “fator humano” segue insubstituível e que as transações imobiliárias continuam complexas demais para serem automatizadas. O CEO da CBRE, Bob Sulentic, chegou a afirmar que vê “risco quase zero” de desintermediação relevante. O mercado, no entanto, parece menos convencido.
Startups e ferramentas de IA já conseguem entregar, em poucas horas, análises de mercado, estudos de viabilidade e relatórios que antes exigiam semanas de trabalho de grandes equipes.
Há ainda um risco mais profundo, frequentemente tratado como nota de rodapé nas teleconferências de resultados: a possibilidade de a própria base de demanda encolher. Se a inteligência artificial permitir que empresas operem com menos funcionários, a consequência lógica é menos escritórios, menos metros quadrados e menos contratos de locação. Mesmo representando hoje cerca de 10% da receita líquida da CBRE, o segmento de escritórios continua sendo um dos maiores formadores de honorários do setor.
Analistas de casas como Raymond James e William Blair seguem reiterando recomendações positivas, apoiadas na diversificação das receitas, no avanço de data centers e na expansão de serviços de gestão de instalações. Mas a reação das ações sugere que o mercado já precifica esses vetores como insuficientes para compensar os riscos de longo prazo.
O desconforto não se limita à CBRE. A ansiedade disruptiva da IA está afetando a JLL também, como citado no The New York Times, porém os problemas da empresa vão além.
Pressionada pela desaceleração das transações, pela compressão de margens e pelo avanço da inteligência artificial sobre atividades, a companhia tem recorrido a cortes e reorganizações para preservar rentabilidade — ainda que isso implique reduzir presença e ambição em mercados relevantes.
No Brasil, o movimento foi explícito. A empresa enxugou operações, reduziu escopo de atuação e trocou o comando local, com a saída de Fábio Maceira e a entrada de Washington Botelho.
Além disso, está sendo abandonando frentes como capital markets, consultoria e hotelaria para concentrar esforços em serviços recorrentes, como gestão imobiliária e locações. Na prática, trata-se de uma retirada parcial de um mercado que já foi tratado como estratégico, sinalizando que o apetite por risco diminuiu à medida que o ciclo imobiliário virou.
No Reino Unido, a reestruturação seguiu o mesmo roteiro, com demissões na divisão de management services. O discurso oficial fala em eficiência, mas o pano de fundo é a dificuldade de sustentar estruturas robustas em um ambiente de menor volume de negócios e clientes mais sensíveis a custos.
A Alemanha completa o quadro. Os cortes no departamento de valuation reforçam um ponto incômodo para o setor: avaliações imobiliárias, antes vistas como um serviço técnico e resiliente, tornaram-se vulneráveis tanto à queda na atividade quanto à automação. Ferramentas baseadas em dados e IA começam a disputar espaço com equipes tradicionais, pressionando um segmento que sempre foi considerado essencial.
Até o fechamento da reportagem, CBRE e JLL não comentaram sobre o assunto.







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