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A política comercial protecionista que ganhou força nos Estados Unidos nos últimos anos começa a reverberar também na América Latina. Quase um ano após o presidente Donald Trump anunciar tarifas mais duras contra uma série de países, o México aprovou um pacote de aumento tarifário que pode atingir diretamente o Brasil e outros grandes exportadores sem acordo de livre comércio com o país.
A medida, aprovada às pressas pelo Congresso mexicano e agora pendente de sanção da presidente Claudia Sheinbaum, estabelece tarifas de importação que podem chegar a até 50% para produtos de 19 setores industriais. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o impacto potencial sobre as exportações brasileiras chega a US$ 1,7 bilhão, o equivalente a 14,7% das vendas do Brasil ao México.
Especialistas apontam que o movimento mexicano não ocorre de forma isolada. Para James Onnig, professor de Geopolítica do Laboratório de Pesquisa em Relações Internacionais da FACAMP, a decisão está diretamente ligada à pressão exercida pelos Estados Unidos.
“Talvez chegue a US$ 1 bilhão de impacto nas consequências. Porém, se olharmos com muita precisão, o que preocupa mais talvez não seja a tarifa, mas sim é que o Brasil e o México estavam avançando em negociações de comércio livre, o que seria um alento para as duas economias. O México não deixou claro se essas negociações vão continuar”, explica.
O México vem sendo acusado por Washington de funcionar como uma rota indireta para empresas estrangeiras acessarem o mercado norte-americano, contornando tarifas impostas pelo governo Trump — especialmente no caso de produtos chineses, mas também de empresas latino-americanas.
De acordo com a CNI, o Brasil está entre os cinco países mais impactados pela nova política tarifária. Ao todo, 232 produtos da indústria de transformação brasileira podem ser atingidos, incluindo aço, autopeças, eletrodomésticos, têxteis, móveis e alumínio.
O efeito é ampliado pelo fato de que 95% dos produtos brasileiros exportados ao México competem diretamente com itens dos Estados Unidos e da União Europeia, regiões que já possuem acordos de livre comércio com o país. Na prática, isso reduz a competitividade do produto brasileiro no mercado mexicano.
Além disso, os acordos comerciais atualmente em vigor entre Brasil e México são considerados insuficientes para neutralizar o impacto. Segundo a CNI, 40,2% do valor potencialmente afetado não possui cobertura tarifária adequada, ou conta apenas com preferências reduzidas.
Onnig conta que uma das respostas que podem ser dadas pelo Brasil, são medidas de reciprocidade.
“Medidas de reciprocidade podem ser a chave. O Brasil aplica daqui e o México aplica dali, aí abre margem para uma negociação, acho que é isso que o México quer. Vamos ver se os EUA aceitam e isso seria uma vitória para a presidente Claudia Sheinbaum”, explica.
Nos últimos anos, o México se consolidou como um hub industrial estratégico para companhias brasileiras. Empresas brasileiras como WEG e Gerdau lideram investimentos no país latino, que somam cerca de US$ 900 milhões, aproveitando a proximidade com os EUA e a estrutura industrial local.
Dados da SiiLA mostram que, entre 2024 e 2025, a área ocupada por empresas brasileiras no México cresceu 3%. Com o novo pacote tarifário, essa estratégia passa a ser reavaliada.
Para José Ignacio Martínez Cortés, doutor em Economia e chefe do Laboratorio de Análisis en Comercio, Economía y Negocios (LACEN-UNAM)**, os efeitos da medida não devem ser imediatos, mas progressivos.
Segundo ele, o aumento no custo de bens intermediários e de capital tende a se propagar pelas cadeias produtivas ao longo do tempo, especialmente em setores que já operam com margens apertadas.
A expectativa é que os impactos mais claros comecem a ser sentidos a partir do primeiro trimestre de 2026, pressionando preços, investimentos e decisões de localização industrial.
Mais do que um ajuste técnico, a decisão mexicana sinaliza uma mudança estrutural no comércio internacional, marcada por maior regionalização, protecionismo seletivo e disputas geopolíticas que extrapolam tarifas — e começam a influenciar diretamente estratégias industriais, logísticas e imobiliárias.











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