Se inscreva para ficar por dentro das novidades do mercado imobiliário, dos eventos, notícias e análises!

A descoberta de inconsistências contábeis já foi o início de muitas crises institucionais em empresas de capital fechado. Agora, um dos maiores grupos de supermercados da região Nordeste está na mira da CVM, em um roteiro que soa familiar para o varejo: um erro de R$ 1,1 bilhão no cálculo de estoques.
Controladora das marcas Mateus, Camiño Supermercado, Mix Mateus, Eletro Mateus e Novo Atacarejo, a companhia divulgou um relatório gerencial que valorizava um estoque inexistente e o CMV (Custo da Mercadoria Vendida). Em outras palavras, inflou artificialmente seu “patrimônio” e seus lucros.
A CVM criticou e exigiu explicações ao grupo varejista, apontando falta de transparência. O ocorrido foi confirmado pelo grupo, que tratou o caso como um “erro pontual” no sistema. O impacto líquido do problema é de 3,8%.
“Ajustes contábeis nos saldos de estoque e questões operacionais referentes a ineficiências de inventário, por sua vez, a Companhia reforça que são assuntos distintos”, afirma a empresa em nota.
Apesar da justificativa, há uma interconectividade entre os problemas. Se a empresa precisou revisar o estoque e reforçar inventários ao mesmo tempo, isso aponta para fragilidades nos processos.
“O episódio envolvendo o Grupo Mateus, com a identificação de um erro de aproximadamente R$ 1,1 bilhão na valorização de estoques, não pode ser tratado como um simples ajuste contábil de rotina. Quando uma companhia aberta comunica ao mercado a necessidade de reapresentar demonstrações financeiras em razão de erro relevante em critérios de custeio ou de mensuração, acende imediatamente um sinal de alerta do ponto de vista jurídico societário e regulatório, em especial diante da atuação da Comissão de Valores Mobiliários”, afirma Leonardo Roesler, advogado especialista em direito empresarial e sócio do RCA Advogados.
Em uma leitura mais crítica, o “erro” bilionário é um sinal de vulnerabilidade nos procedimentos contábeis, fiscais e operacionais.
Além disso, outros questionamentos levantados durante a denúncia mostram mudanças em auditorias contábeis ao longo das revisões — o que, por si só, não é um problema, mas acende um sinal de alerta.
“Resta a questão sensível de saber se a situação do Grupo Mateus é apenas um grande erro contábil ou se pode indicar um problema maior. A resposta honesta, neste momento, é que a existência do ajuste bilionário, por si só, não comprova fraude, mas revela uma fragilidade relevante em controles internos e sistemas de custeio. Quando um equívoco dessa magnitude só é identificado após revisão aprofundada, o mercado interpreta isso como sinal de que os mecanismos de verificação anteriores não eram suficientes. A experiência recente com casos de grandes companhias varejistas e financeiras no Brasil mostra que algumas crises começaram com comunicados sobre ‘inconsistências’ ou ‘reclassificações’ e, com o avanço das investigações, evoluíram para a constatação de problemas mais estruturais em governança, controles e até condutas dolosas”, conta Roesler.
Mesmo com a narrativa de controle, o mercado reagiu: as ações do Grupo Mateus caíram 15% nos dias seguintes à notícia. E, caso a crise de confiança avance, seus reflexos não ficarão restritos ao varejo.
A operação logística do Grupo Mateus é massiva e altamente relevante para o mercado imobiliário do Norte e Nordeste. Dados da SiiLA mostram que no Nordeste, o grupo ocupa 81 mil m² em condomínios logísticos das classes A+, A e B, distribuídos entre Pernambuco e Ceará.
Por ora, não há sinais de desocupações ou cortes estruturais. Mas, em mercados como Fortaleza e Suape, onde a vacância em galpões premium é próxima de 0%, um único player de grande porte já tem peso suficiente para alterar expectativas — tanto de proprietários quanto de investidores institucionais.
Outro risco aparece em fundos focados em varejo, como é o caso do TRXF11. Nessa carteira, o Grupo Mateus representa mais de 21% da receita do FII após a aquisição de quatro lojas nas modalidades built-to-suit e sale and leaseback. O risco não é de inadimplência imediata, mas de sensibilidade de mercado: investidores tendem a reprecificar o fundo para baixo sempre que o inquilino dominante enfrenta turbulências.
O TRXF11 conta com contratos atípicos de 20 anos, multas equivalentes ao saldo remanescente e fiança do controlador do Grupo Mateus — mecanismos que, em teoria, blindam o fundo. Porém, o episódio demonstra que, na prática, a maior ameaça não é jurídica, mas de percepção. Se o mercado passa a questionar a solidez do inquilino, o fundo sofre antes mesmo de qualquer impacto operacional ou financeiro real.








Se inscreva para ficar por dentro das novidades do mercado imobiliário, dos eventos, notícias e análises!
