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Quando Nikolas Matarangas decidiu abrir seu primeiro coworking, em 2018, o movimento não fazia parte de um plano traçado anos antes. Formado em administração pela Fundação Armando Alvares Penteado, com passagem pelo mercado financeiro e anos dedicados à indústria alimentícia da família, o empreendedor acabou entrando no mercado imobiliário quase por acaso — e transformando uma oportunidade imobiliária deteriorada em uma operação que hoje se espalha por 12 estados brasileiros.
Antes de mergulhar no universo dos escritórios flexíveis, Nikolas construiu uma trajetória pouco convencional. Ainda jovem, morou sete anos nos Estados Unidos, ao retornar ao Brasil, concluiu os estudos na FAAP e começou a carreira no Banco Santander, onde trabalhou entre 2014 e 2015.
Mas o mercado financeiro acabou ficando sem emoção diante do desafio que surgiu dentro de casa. Nikolas decidiu trocar os escritórios corporativos pela rotina industrial. Foram sete anos dedicados à operação da empresa, período em que desenvolveu uma visão pragmática sobre eficiência, processos e gestão financeira.
“Fábrica é um ambiente onde tudo é muito apertado. Você trabalha sempre buscando eficiência máxima e controle financeiro absoluto”, afirma. “Isso acabou me preparando muito para empreender depois.”
Nos últimos anos dentro da indústria, a missão era clara: preparar a companhia para uma venda. Para isso, Nikolas mergulhou em cursos de especialização em fusões e aquisições, incluindo programas em New York University e na London School of Economics. O processo de profissionalização da fábrica levou cerca de três anos até a conclusão da venda, em 2024.
Enquanto estruturava a saída da indústria alimentícia, Nikolas já testava o primeiro empreendimento paralelo. A ideia nasceu a partir de um imóvel antigo e deteriorado no bairro do Brás, em São Paulo, em um momento em que o mercado de coworking ganhava visibilidade impulsionado pela expansão global de empresas como a WeWork.
“Eu não tinha um sonho específico de abrir um coworking. Surgiu a oportunidade de um imóvel barato em um mercado que estava crescendo e resolvi tentar”, relembra.
O primeiro espaço deu certo rapidamente. Pouco tempo depois, um grupo ligado ao setor de shopping centers convidou o empresário para abrir uma segunda unidade dentro de um novo empreendimento comercial. A expansão aconteceu justamente às vésperas da pandemia.
“Eu estava inaugurando um coworking no momento em que ninguém queria mais trabalhar presencialmente”, diz. “Foi um período de renegociação, insegurança e muita adaptação.”
Apesar dos impactos do lockdown, as operações voltaram a crescer após a reabertura dos escritórios. Em 2022, os investidores ligados ao shopping decidiram comprar as duas unidades. A venda abriu espaço para um novo capítulo: a criação da Be in.
Fundada em julho de 2022, a empresa começou operando um coworking no Brooklin, em São Paulo. Em poucos meses, o espaço cresceu de um quarto de laje para uma ocupação completa de mil metros quadrados. Mas, enquanto ampliava a operação, Nikolas começou a estudar novos formatos internacionais de escritórios flexíveis.
Foi então que encontrou referências em modelos híbridos entre real estate e serviços corporativos, com inspiração em empresas indianas, como a Tablespace. A partir disso, decidiu reposicionar a empresa para atuar principalmente com escritórios sob medida no formato built-to-suit, entregando não apenas o espaço físico, mas toda a operação e infraestrutura para os clientes em forma de serviço, Workspace as a Service.
“O coworking tradicional tem uma rotatividade alta. Eu queria construir algo com contratos mais longos e maior previsibilidade”, explica.
O movimento mudou completamente o rumo da companhia. Hoje, das 22 unidades operadas pela Be in em todo o país, apenas duas seguem o modelo tradicional de coworking. O foco principal passou a ser o desenvolvimento de escritórios personalizados com serviços integrados.
Mesmo atuando no mercado imobiliário, Nikolas faz questão de dizer que enxerga a Be in muito mais como uma empresa de serviços do que como uma companhia tradicional de real estate. Talvez por isso, a tecnologia tenha se tornado um dos pilares da operação desde o início.
“Desde o primeiro coworking, lá no Brás, a gente já automatizava tudo o que conseguia”, conta. “Controle de acesso, monitoramento, gestão operacional. Sempre gostei muito de tecnologia.”
A busca por eficiência operacional também explica uma característica incomum entre empresas de crescimento acelerado: a Be in nunca captou recursos de fundos de investimento.
“A gente sempre cresceu olhando muito para responsabilidade financeira. Não temos um cheque infinito para errar”, afirma.
Fora dos escritórios, Nikolas se define como alguém movido por adrenalina. Surf, ciclismo e até aulas de pilotagem fazem parte da rotina quando sobra tempo livre — algo raro para quem lidera uma operação em expansão nacional.
“Eu estou sempre buscando algum desafio novo”, resume.
Ao olhar para trás, o empreendedor acredita que persistência foi o fator decisivo em sua trajetória. Especialmente nos momentos mais difíceis, como durante a pandemia, quando viu um investimento recém-realizado ser colocado à prova pelo fechamento dos escritórios.
“Se eu pudesse falar com o Nikolas que estava começando a faculdade hoje, eu diria para ele persistir”, afirma. “Sempre vai ter um momento em que você pensa em desistir.”
Mas talvez o maior aprendizado tenha vindo justamente da construção da equipe. Apesar de ter começado sozinho, Nikolas afirma que percebeu ao longo da jornada que nenhuma empresa cresce sem pessoas alinhadas ao propósito do negócio.
“A gente não constrói nada sozinho”, diz. “Ter pessoas leais, comprometidas e caminhando na mesma direção faz toda a diferença.”
Hoje, enquanto a Be in continua expandindo sua presença pelo Brasil, o executivo afirma que o principal objetivo é crescer sem renunciar à qualidade de vida, algo que se tornou prioridade após experiências de burnout vividas tanto por ele quanto por pessoas próximas dentro da empresa.
“A empresa precisa crescer, mas isso não pode custar a saúde das pessoas”, afirma. “No final das contas, nada pode ser tão estressante a ponto de deixar de valer a pena.”
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