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A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa Selic para 14,25% ao ano não elimina os desafios para os fundos imobiliários. Apesar do início de um ciclo de flexibilização monetária, o Banco Central reforçou que a inflação permanece acima da meta, com expectativas desancoradas e riscos elevados, mantendo o mercado atento à trajetória dos juros futuros.
Para especialistas, o impacto sobre os FIIs não está diretamente ligado apenas ao nível atual da Selic, mas principalmente à percepção dos investidores sobre o caminho dos juros nos próximos anos.
Segundo Marcos Baroni, analista CNPI, especialista em fundos imobiliários da Suno Research e professor há 22 anos, o principal indicador observado pelo mercado é a curva futura de juros.
“A pergunta correta não é Selic, é juro futuro. Quando a gente fala Selic, não tem um impacto tão direto no fundo imobiliário quanto o juro futuro”, afirma.
Segundo ele, nas últimas semanas, a alta dos juros futuros pressionou as cotações dos fundos imobiliários, justamente porque o mercado passou a revisar para cima a expectativa sobre a velocidade dos cortes da taxa básica.
“Os juros futuros subiram, o mercado percebeu que o Banco Central não ia cortar tantos juros como imaginávamos entre 2026 e 2027. E quando os juros futuros subiram, consequentemente as cotações caíram”, explica.
A lógica ocorre porque os FIIs disputam espaço na carteira dos investidores com ativos de renda fixa. Quando a expectativa é de juros elevados por mais tempo, títulos públicos passam a oferecer retornos mais atrativos, reduzindo o apetite por ativos de maior risco, como fundos imobiliários.
Com o Banco Central projetando desaceleração econômica e mantendo preocupação com a inflação, especialistas avaliam que o ambiente atual não favorece uma classe específica de FIIs, mas sim fundos com características mais defensivas. Segundo ele, a estratégia passa por identificar fundos mais preparados para atravessar um período prolongado de juros elevados.
“Vai ter uma desaceleração econômica, quem vai se beneficiar? No fundo, ninguém [...] O meu tom nesse cenário é: é difícil encontrar vencedores. A gente tem que procurar resiliência”, diz.
Entre os fatores apontados pelo analista estão fundos maiores, diversificados, com baixa alavancagem, reservas acumuladas e gestão ativa de portfólio.
“Um portfólio robusto é aquele com um fundo maior, mais diversificado, com uma alavancagem bem equacionada e reservas acumuladas. Esses fundos atravessam esse inverno com uma certa resiliência”, afirma.
Dentro dos fundos imobiliários de tijolo, a qualidade dos contratos passa a ser um dos principais fatores de diferenciação. Segundo Baroni, fundos com contratos atípicos e locatários de qualidade tendem a sofrer menos em um ambiente de desaceleração econômica.
“Os fundos que têm contratos atípicos de longo prazo, com boas companhias, tendem a se beneficiar porque têm uma proteção maior do aluguel”, explica.
Ele cita como exemplo imóveis ocupados por empresas de setores mais estáveis, como hospitais e escolas, com contratos de longo prazo. Por outro lado, ativos mais dependentes do ciclo econômico podem sentir maior pressão.
“Uma laje corporativa com contrato que pode ser renovado de três em três anos está mais exposta. Se a empresa está sentindo a desaceleração econômica, não dá para imaginar que o aluguel vai subir”, afirma.
Apesar do impacto negativo no curto prazo, o cenário de juros elevados também pode criar efeitos positivos para alguns segmentos imobiliários no médio prazo.
Para Artur Losnak, head de análise da Zagros Capital, o juro elevado reduz a atratividade de novos projetos imobiliários, limitando a entrada de novos empreendimentos no mercado.
“O juro alto freia novos desenvolvimentos imobiliários. Terrenos que deixaram de ser comprados em 2021 e 2022 resultarão em baixa entrega de estoque novo em 2027 e 2028. Menos oferta com demanda aquecida pode resultar em recuperação dos preços de locação e, consequentemente, dos dividendos”, afirma.
Segundo ele, o aumento do custo de reposição dos imóveis, pressionado pela elevação dos custos de construção, também pode favorecer ativos já existentes e bem localizados.
Na avaliação de Losnak, os segmentos podem responder de formas diferentes quando o ciclo de juros começar a mudar.
Segundo ele, os shoppings tendem a reagir primeiro, devido à relação com consumo e aluguéis variáveis.
“Em primeiro lugar, shoppings, por terem uma parte do faturamento atrelado ao aluguel variável. Depois, logística, pelo maior consumo e crescimento do e-commerce. Na sequência, lajes corporativas e, por último, renda urbana, um setor mais defensivo”, afirma.
No entanto, o analista ressalta que o comportamento recente do mercado corporativo mostra uma dinâmica própria.
“A correlação entre ciclo econômico geral e mercado de lajes corporativas de alto padrão tem sido fraca recentemente. A demanda das empresas por regiões primárias parece pouco elástica a variações de PIB no curto prazo”, explica.
Apesar das incertezas, Baroni avalia que o atual nível dos juros reais dificilmente deve permanecer por um longo período. Para ele, uma eventual queda mais consistente dos juros futuros pode ser um gatilho positivo para os fundos imobiliários.
“É a queda do juro futuro que impacta a curva das NTN-Bs e, consequentemente, leva investidores para ativos como fundos imobiliários, que hoje estão negociando com yields muito elevados”, explica.
A conclusão dos especialistas é que o momento exige menos uma busca por “vencedores” e mais atenção à qualidade dos ativos.
Em um cenário de inflação elevada, juros ainda restritivos e incerteza externa, a diferença tende a estar na capacidade de cada fundo atravessar o ciclo — e não apenas no segmento ao qual pertence.











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