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“O cap rate continua sendo uma métrica imobiliária, mas hoje reflete de forma muito mais direta o custo global do capital.” A avaliação é de Marco A. Ribeiro, diretor da Capright Brasil, ao analisar como a alta de juros internacional reposicionou a precificação dos ativos no mundo, e no Brasil.
Conceitualmente, explica Ribeiro, o cap rate pode ser entendido como a soma da taxa livre de risco com um prêmio específico do ativo. “Quando as taxas soberanas sobem, o piso de retorno exigido pelos investidores se desloca. Se o cap rate não acompanha, o prêmio do imobiliário se comprime frente a alternativas como títulos públicos e crédito corporativo, pressionando preços.”
Nos Estados Unidos, esse movimento ficou evidente após 2022. Com o Treasury de 10 anos próximo de 4,5%, mercados como Nova York, Los Angeles e San Francisco registraram expansão relevante dos cap rates de escritórios. No logístico, hubs como Dallas, Atlanta e Chicago também ajustaram yields após anos de compressão. Já no multifamily, mercados do Sun Belt, como Austin e Phoenix, passaram por reprecificação para recompor o spread frente ao novo custo de financiamento.
Em 2025, segundo Ribeiro, observa-se estabilização em diversos segmentos: o volume de transações cresceu, os preços deixaram de cair de forma generalizada e o crédito voltou a fluir com maior disponibilidade e alavancagem. Ainda assim, os investidores permanecem seletivos e exigem spreads mais consistentes em relação à curva soberana.
Para Ribeiro, o debate central é se o mundo entrou em uma “nova normalidade” de cap rates estruturalmente mais altos. A leitura dele é equilibrada: “Estamos diante de um ajuste cíclico relevante, que ocorre sobre uma mudança estrutural de patamar no custo de capital.”
O componente cíclico aparece na estabilização recente dos yields nos EUA. Já o elemento estrutural deriva de fatores como maior endividamento público em economias desenvolvidas, o que tende a manter prêmio nas curvas longas, além de mudanças setoriais, especialmente no escritório, onde parte da expansão de cap rates reflete risco permanente de ocupação e obsolescência.
Mas Ribeiro alerta para o rigor metodológico. “O indicador relevante é o spread sobre a taxa livre de risco local.” Com a NTN-B 2035 em torno de 7,2% real no período, um cap rate industrial de 11,7% representa prêmio próximo de 450 pontos-base. O spread do IFIX sobre a NTN-B estava em faixa semelhante, acima da média histórica recente.
“A conclusão é mais complexa do que o headline sugere. O Brasil negocia com cap rates nominais mais elevados, mas o prêmio real ajustado ao risco doméstico não é extraordinário. Parte relevante do yield remunera risco macroeconômico.”
Para o investidor local, com passivo em reais, o prêmio atual pode ser considerado consistente, especialmente em ativos com contratos longos e indexação adequada. Para o investidor internacional, a equação inclui risco cambial e soberano. “Quando ajustado para dólar e custo de hedge, o diferencial em relação a mercados desenvolvidos se estreita.”
Após a reprecificação global, há desalinhamento entre vendedores e compradores, mas de forma heterogênea. No escritório, cap rates saíram de cerca de 6,5% em 2021 para níveis próximos de 9% nas transações recentes. Muitos proprietários ainda ancoram expectativas no ciclo anterior, enquanto compradores internalizaram taxa livre de risco mais elevada.
No logístico, o equilíbrio é maior, com estabilização entre 8,5% e 9%. Em shopping centers dominantes, transações recentes estabeleceram benchmarks claros, indicando consenso em ativos prime.
O aumento do custo da dívida impactou primeiro o volume de transações, reduzindo compradores altamente alavancados e, de forma mais gradual, o valuation. O efeito foi segmentado: escritórios ajustaram mais; logística e shoppings dominantes mostraram maior resiliência.
Isso alterou também o perfil dominante. “O investidor core puro perdeu protagonismo relativo, e o oportunístico altamente alavancado também. Ganhou espaço o capital entre core+ e value add leve, financiado majoritariamente com equity e focado em crescimento de NOI.”
Segundo Ribeiro, a estrutura atual de cap rates é compatível com o custo de capital institucional em ativos de qualidade, mas exige rigor na premissa de saída. “Utilizar médias históricas que incorporam o período de repressão financeira pode inflar artificialmente o valor residual.”
Para que haja compressão ampla e sustentável de cap rates no Brasil, a condição central é queda estrutural da taxa real de longo prazo. “Não basta redução pontual da Selic. O mercado precisa acreditar que a NTN-B longa operará em patamar mais baixo de forma duradoura.”
Até lá, a transmissão do custo global do capital continuará sendo filtrada por fundamentos específicos de cada segmento. “Tratar o mercado como um bloco único é o erro analítico mais comum do ciclo atual. As oportunidades existem, mas estão concentradas onde há clareza de fundamentos e consenso de precificação.”











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