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No final da Faria Lima, praticamente na região da Vila Olímpia, Luiz Felippe Delmazo recebeu o REsource diretamente no escritório da Zolver, empresa da qual é CEO. Em uma ampla sala de reuniões, o executivo se sentou e, sem demonstrar qualquer nervosismo — algo comum em entrevistas —, começou a contar sobre sua vida.
“Fiz administração na PUC Minas, mas o mais engraçado é que iniciei uma faculdade de engenharia. Depois de três ou quatro meses, percebi que não era isso que eu queria; buscava algo mais gerencial e menos técnico”, relembra.
Delmazo conta que, com dois anos de curso, já iniciou sua trajetória profissional. Após a indicação de um amigo, ingressou na Odebrecht, onde trabalhou durante 13 anos.
A personalidade do executivo é perceptível nos primeiros minutos de entrevista: é um profissional que acredita na construção de uma carreira sólida — um tema recorrente ao longo do bate-papo.
Apesar de hoje comandar uma empresa focada em ativos logísticos, o início da trajetória de Delmazo foi no setor residencial mineiro. Na Odebrecht, o projeto era novo, com pequenos prédios e loteamentos, e o futuro executivo atuava na área financeira e contábil.
“Em termos de carga horária, o fato de o trabalho ser muito manual fez com que eu aprendesse na prática, e isso acelerou muito meu desenvolvimento no início da carreira. Fiquei praticamente um ano e meio, dois anos, nesse ritmo intenso: estudava à noite, entrava no escritório às sete da manhã, ia para a faculdade, voltava às onze da noite e ficava no escritório até quatro ou cinco horas da manhã. Isso durou mais ou menos um ano e meio, dois anos”, conta.
Olhando para trás, ele afirma que não se arrepende daquela rotina extenuante. Apesar da preocupação de sua mãe, o então estudante viu seu esforço ser recompensado: faltando seis meses para se formar, foi efetivado na empresa e passou a assumir papéis cada vez mais relevantes.
Recém-formado e noivo, Delmazo chegou a uma fase da vida na qual precisou fazer escolhas importantes. Seis meses após a formatura, recebeu uma proposta: mudar-se para Moçambique.
Naquela época, a Odebrecht atuava em diversos países e mantinha um projeto em uma cidade do interior moçambicano. O executivo estava inclinado a aceitar; sua noiva, embora assustada, o apoiava e estava disposta a acompanhá-lo. Porém, simultaneamente, surgiu outra proposta: assumir as operações mineiras e brasilienses da empresa, em Brasília.
“Entre Moçambique e Brasília, nós escolhemos Brasília. É engraçado, porque sempre que eu começava um novo programa de aprendizado, vinha uma mudança de cidade ou até de país. Nesse caso, eu já estava iniciando um MBA quando recebi a proposta para Brasília. Fui para assumir a gestão de duas regionais: Brasília e Minas. Ficava responsável pela área financeira, pelo relacionamento com o cliente, pela gestão de pessoas e também pelas questões administrativas. Tudo que não era diretamente ligado à engenharia e à construção ficava sob minha responsabilidade”, relembra.
Delmazo passou cinco anos em Brasília. Entre novos negócios, projetos cada vez maiores e networking com pessoas importantes, ampliou sua rede de contatos. Depois desse período, pensava em novos desafios, mas sua trajetória na Odebrecht ainda não havia terminado.
“Falei que ia pedir demissão. Fui viajar e disse: ‘Quando eu voltar, estou fora da empresa’. Lembro direitinho: no dia 31 de dezembro, Réveillon, às 11 horas da noite, me ligam: ‘Você não vai sair, não. Já conversei internamente, vamos te fazer uma proposta. Sei que, neste momento, a parte financeira para você não é o mais importante, mas o mais importante: você vai assumir um novo programa’”, relembra. “Disseram: ‘Você vai liderar esse programa e também será CEO de duas empresas do grupo, que cuidam dessa área’.”
Naquele momento, a Odebrecht diversificava sua atuação, entrando também no segmento de baixa renda. O grupo liderava o maior projeto do programa Minha Casa Minha Vida até então, com um empreendimento de 8 mil unidades. Um deles era particularmente relevante: cerca de R$ 600 milhões a receber, entre repasses e vendas.
“Desliguei o telefone. Eu estava viajando com minha esposa. Falei: ‘E aí, amor?’. E ela: ‘É o seu coração que tem que dizer’. Decidimos aproveitar o Réveillon. Curti a virada e, no dia seguinte, liguei para a Odebrecht: ‘Tamo junto!’”, relembra.
Em dezembro de 2016, como parte dos desdobramentos da Operação Lava Jato — uma das maiores investigações anticorrupção do mundo —, a Odebrecht firmou um acordo de leniência com a Procuradoria-Geral da República (PGR). As delações resultantes, conhecidas como "delações do fim do mundo", envolveram 78 executivos, incluindo o ex-presidente Marcelo Odebrecht e seu pai, Emílio Odebrecht, e resultaram na abertura de 83 inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF).
Na época, Delmazo atuava como diretor financeiro, de RH e administrativo nos mercados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Brasília. De repente, se viu diante de uma missão: recuperar clientes e a reputação da empresa.
“Foi uma crise bem delicada, com a Lava Jato e tudo o que ela trouxe, fazendo com que a empresa perdesse completamente a credibilidade. Você sai de uma organização rica, com muita força e reputação, para uma empresa cheia de dificuldades, enfrentando vários processos, e que precisava reconquistar a confiança dos seus parceiros. E foi justamente aí que eu sempre me destaquei: na capacidade de retomar a confiança dos nossos parceiros e investidores, tanto nos momentos bons quanto nos mais difíceis”, conta.
Delmazo se destacou por sua atuação durante a crise, e esse reconhecimento extrapolou a Odebrecht. Após fechar diversos negócios, Walter Torre, então presidente da WTorre, o convidou para uma conversa.
“Fui lá falar com o Walter, isso foi em 2019. Era ele com mais dois executivos, uma conversa muito boa. Naquele momento, Walter estava um pouco afastado da gestão, por questões de saúde. Ele me disse que queria retomar a empresa, com foco na área imobiliária, que sempre foi o core business dele. E então falou: ‘Estou precisando de um executivo para essa área. Você não quer vir trabalhar com a gente?’”, conta.
Delmazo decidiu então sair da Odebrecht após 13 anos e iniciar sua trajetória na WTorre. Lá, passou a ser responsável por áreas que até então desconhecia: energia e nanotecnologia.
“Em mais ou menos dois meses, fechei a área de energia. Era um problema que tínhamos, renegociamos muitos contratos com players grandes, tivemos sucesso e encerramos a área. Também descontinuamos a área de nanotecnologia. Naquele momento, decidimos concentrar esforços em duas frentes: entretenimento e imobiliário”, relembra.
Walter Torre confiou a Delmazo a missão de montar um novo time, com pessoas jovens e focadas. O executivo então liderou novos projetos, como o Alto das Nações, voltando à sua zona de conforto: o setor imobiliário.
Após a venda do Alto das Nações e outros grandes projetos corporativos, Delmazo foi chamado por Walter Torre para falar sobre logística. Embora não dominasse o tema na época, ficou encarregado de comercializar um terreno em Franco da Rocha.
O desafio era encontrar um inquilino para um projeto ainda não construído, em uma região pouco cobiçada, competindo com grandes players que já tinham imóveis prontos.
“Walter falou para mim: ‘Se Cajamar é Faria Lima, Franco da Rocha é Berrini. Então, vamos lá, vai dar certo’. Naquele momento, estava acontecendo o BID do Mercado Livre, e fiquei pensando em como ganhar esse BID.”
A concorrência era pesada: GLP e Prologis, ambos com empreendimentos prontos em Cajamar.
“Subimos um drone no horário de pico e mostramos ao cliente que, apesar de o nosso imóvel estar cerca de 10 km mais longe, ele conseguiria chegar lá mais rápido do que chegaria a Cajamar naquele horário. Fizemos uma baita apresentação, destacando a excelente acessibilidade. Era o primeiro empreendimento da cidade, mas precisávamos de mais. Então, fomos até a prefeitura de Franco da Rocha e conseguimos convencê-los a criar incentivos para a área de logística. Conseguimos aprovar leis de isenção de IPTU, redução de ITBI… No fim, ganhamos o BID do Mercado Livre”, conta.
Após a conquista, a morte de Walter Torre, vítima de uma parada cardiorrespiratória, abriu-se uma nova fase na empresa. E Delmazo se manteve firme e seguiu com os projetos.
“Decidimos seguir em frente, continuar o legado do Walter. Sabíamos que precisávamos concluir o projeto do Mercado Livre em menos de cinco meses: 50 mil m², em sete módulos, totalizando 90 mil m². Um desafio enorme. Lembro bem: minha equipe entrou na sala e disse, preocupada: ‘Delmazo, não vamos conseguir, vamos perder o cliente’. Olhei firme e respondi: ‘Nós vamos conseguir. Vocês têm carta branca para fazer o que for preciso, mas só existe uma missão: fazer acontecer. Esse empreendimento é de vocês. Não vamos perder o cliente’”, relembra.
Essa filosofia acompanhou Delmazo por toda a sua trajetória: a prioridade sempre foi o cliente, algo que herdou dos tempos de Odebrecht.
Toda a sua carreira o levou até aqui. Foram quatro anos na WTorre, com projetos em Extrema, Cajamar e Guarulhos. Nesse período, ele se apaixonou ainda mais pelo setor logístico e a semente da Zolver foi plantada.
Em determinado momento, Delmazo decidiu montar sua própria empresa, com um foco inegociável: o cliente. “Quem der negativa para o cliente estará errado”, resume sua filosofia.
Após concluir um último projeto, convidou os profissionais confiáveis para estruturar a Zolver. Assim que fecharam a equipe, Delmazo realizou uma viagem. No primeiro dia de volta, recebeu uma ligação.
“Uma pessoa de uma grande empresa de e-commerce me ligou dizendo que tinha uma demanda e perguntou se eu podia ajudar. Marcamos um almoço e, durante a conversa, ele explicou a necessidade em uma determinada região e perguntou se eu poderia olhar. Contei que havia saído da WTorre e estava montando minha própria empresa, com um time forte e estrutura reforçada, e perguntei se ele faria negócio comigo. Ele me parabenizou pela decisão, disse que eu estava certo e que levaria a proposta internamente. No dia seguinte, me ligou: ‘Passou, cara! Pode ir, pode montar. A gente vai fazer negócio com você. Sabemos que você sabe desenvolver, tem um bom relacionamento e muita experiência. Isso, para nós, é o mais importante’”, conta.
Depois disso, Delmazo buscou novos clientes e fundos de investimento. Participaram de um novo BID e venceram, tirando um projeto que estava parado havia mais de dez anos.
Com a chegada de novos sócios, a Zolver se consolidou como uma empresa multidisciplinar. Ela é, hoje, um reflexo de Luiz Felippe Delmazo: um profissional focado em resultados, centrado no cliente e, acima de tudo, um homem de palavra.
Market Drivers | Lideranças que movem o setor imobiliário
Na coluna Market Drivers, o REsource mergulha nas trajetórias de grandes executivos que estão moldando o mercado imobiliário comercial. A cada edição, apresentamos um perfil exclusivo de líderes que deixam sua marca em segmentos como escritórios, logística, varejo e multifamily. Mais do que contar histórias, Market Drivers conecta pessoas, inspira caminhos e revela como o talento individual impulsiona transformações de escala no real estate latino-americano.
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