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No alto de um dos principais complexos corporativos de São Paulo, o Parque da Cidade, Ricardo Betancourt comanda a Colliers, uma das principais empresas de real estate do país. O executivo, um homem alto e calmo, que também é velejador, conduz a empresa em um mar de prédios e galpões com a firmeza que um capitão tem diante sua tripulação.
Sua história profissional se mistura com a história de sua vida. Antes de existir Colliers, antes de sua faculdade de engenharia e de seu primeiro emprego, o elo entre Betancourt com o mundo dos edifícios era seu pai.
“Meu pai era um empreendedor. Ele tinha uma presença muito forte, ele foi um dos caras que é trouxe o concreto o pré-misturado para o Brasil. Ele fundou a maior empresa de segmento do país, se chamava Concretex. Enquanto as crianças iam para parques e eu e meus irmão íamos com ele visitar usinas de concreto aos sábados. Eu adorava brincar em caminhões, montes de pedra e areia”, relembra.
Anos depois, agora na faculdade de engenharia, Betancourt decidiu seguir os passos de seu pai e fundou sua própria empresa de concreto, a BConcreto. Porém, nos primeiros anos a empresa passou pela primeira dificuldade, a hiperinflação.
A hiperinflação foi um período no Brasil durante a década de 80 de instabilidade econômica. O período foi conhecido por aumentos rápidos e descontrolados dos preços, com variações diárias. Mesmo com dificuldades, Betancourt conta que esse período trouxe muitos aprendizados.
“Foi uma escola para mim porque eu tinha que vender, eu achava que conhecia São Paulo, mas não conhecia nada da cidade. Então, eu pegava o Guia 4 Rodas fazia o caminho que tinha que fazer até a obra ou a empresa”, comenta.
Nesse período, Betancourt contou que aprendeu não apenas sobre negócios, mas sobre pessoas e sobre assumir responsabilidades.
“Foi um começo difícil. Eu trabalhava o dia inteiro e chegava na faculdade para estudar à noite. Eu passava a noite inteira estudando e ia fazer prova na cara e na coragem”, conta.
A empresa de concreto de Betancourt teve que ser vendida após algumas dificuldades. Depois de períodos trabalhando com seguros, um de seus quatro irmãos o convidou para trabalhar na BCorp, uma empresa familiar voltada ao mercado imobiliário.
“Um belo dia o pessoal da Colliers veio para o Brasil e eles estavam procurando uma empresa que não fosse ligada a nenhum grupo para se associar a eles e começaram a conversar com os principais players do mercado”, diz.
Na época, o pai de Betancourt já não atuava mais no ramo de concreto, ele havia migrado para a construção civil, principalmente no desenvolvimento de escritórios na região da Chácara Santo Antônio.
“A gente competia muito com o Birmann e ele tinha uma parceria, que dura até hoje, com a CBRE, que na época se chamava Richard Ellis. Já meu pai usava para os seus negócios a BCorp, empresa familiar do meu irmão, na qual eu também trabalhava. A Colliers soube da gente, entrevistaram o meu irmão e gostaram do que viram. Tempos depois, em Toronto, o negócio entre Colliers e BCorp foi fechado, e nós nos transformamos na Colliers do Brasil em 1998”, relembra.
Betancourt considera ter trilhado uma carreira conservadora. Está hoje no posto mais alto de uma empresa que acompanha há mais de 30 anos em seu currículo. Se, de um lado, está em terra firme, do outro encontra-se em alto-mar: além da Colliers, sua grande paixão é velejar.
E como surgiu esse hobby? “Tenho dois filhos, o mais velho gosta muito de esportes e o mais novo nem tanto. Um dia, um amigo sugeriu que eu levasse o mais novo para velejar. Então, convidei ele para fazermos um curso juntos. No fim, acabei gostando mais do que ele”, relembra com um sorriso.
Seguindo os passos de grandes aventureiros, Betancourt se encantou pela sensação de liberdade, pela estratégia e pelo horizonte azul. Para ele, velejar exige planejamento, estudo e foco — é traçar novos caminhos e explorar novos horizontes.
“Procuro, pelo menos uma vez por ano, fazer uma viagem fora do Brasil. Já fui muitas vezes para o Caribe, Grécia, Croácia e Itália. É uma diversão para mim não apenas o tempo em que estou velejando, mas também o processo de planejar a viagem. Sou aquele cara metódico que compra a carta náutica e fica programando os locais onde vai parar e visitar”, conta.
Entre as viagens já realizadas e o sonho de chegar à Antártida, Betancourt divide a vida corporativa com a paixão pelo mar. Ele afirma que as duas experiências se complementam: a vida em alto-mar ensina lições para os negócios — e o mundo corporativo, por sua vez, inspira aprendizados na vela.
Betancourt já enfrentou desafios em alto mar, já enfrentou tempestades no mundo corporativo e já viu mares calmos e agitados em ambos os mundos.
“Ricardo, o que é mais difícil conduzir um barco ou uma empresa?”
Ele responde sem hesitar: “A empresa. Acho mais difícil, porque na Colliers somos 300 pessoas, e lidar com o ser humano não é simples. As gerações são diferentes, e a forma de lidar com cada uma delas também muda. Já o barco é mais simples de conduzir”, conclui.
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