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Com mais de 13,8 mil unidades, o segmento multifamily parece cada vez mais incorporado ao real estate brasileiro, mas a adequação de um modelo estrangeiro tão inovador enfrenta barreiras que muitas vezes o próprio mercado não está pronto para reconhecer e avaliar opções para superar.
Os desafios escancaram pouca maturidade, passando pela falta de entendimento do conceito, frágeis estruturas de financiamento e opacidade de informações das empresas para uma boa avaliação de mercado, desenhando um longo caminho para os investidores e gestores trilharem.
Dentro da avaliação de viabilidade de cada empreendimento, são necessárias etapas como aquisição de terreno, obras, alvarás, mobília, faciliteis e serviços. Para sustentar tudo isso, proprietários como Luggo, Vila 11 e Citas precisam equilibrar na balança qual o modelo ideal: classe atendida, local do ativo, tempo de locação por contrato e serviços disponibilizados.
Isadora Rebouças, CEO na Citas, destacou a ausência de estruturas financeiras que comportam o investimento. “O que mais falta hoje é acesso ao capital que já vai naturalmente para a incorporação tradicional. Quem trabalha com incorporação tradicional consegue acessar linhas muito melhores. A gente, por exemplo, financia CDI (14,40% ao ano, de acordo com o levantamento de 29 de maio de 2026) mais 7% para fazer habitação de interesse social no centro de São Paulo. Porque é o único dinheiro que conseguimos acessar”, explicou.
Outro ponto é a concentração geográfica dos ativos. Com o crescimento expressivo a partir de 2021, as torres se reorganizaram em um eixo de localização central, fazendo com que cerca de 77% das unidades multifamily ativas hoje estejam centralizadas na capital paulista.
Esse é um reflexo direto da complexidade operacional e a ausência de múltiplos players no mercado. Segundo Isadora, essa característica é de um segmento ainda emergente.
“É trabalhoso fazer a operação e é muito mais fácil você ter uma boa operação quando os ativos estão concentrados. Quando tenho muitos prédios próximos, consigo compartilhar pessoas-chave em vários empreendimentos. Se eu começo a expandir geograficamente, levo um custo operacional muito grande. Tanto que poucos os players têm feito movimento de expansão geográfica”.
Giancarlo Nicastro, CEO da SiiLA, chama a atenção para a falta consciência e conhecimento do mercado para que possa de fato expandir. “As pessoas entendem multifamily pela tradução: residencial para renda. Então compram um apartamento em um prédio residencial e acham que elas têm um produto multifamily. Existe um desconhecimento da definição própria do produto”.
Mesmo presente no mercado há anos, esse conceito ainda derrapa no gosto de gestores, investidores e para o público. Bruno (nome fictício), morador de um empreendimento de alto padrão na Zona Oeste de São Paulo que preferiu não se identificar relata diversos problemas que envolve esse tipo de empreendimento. O jovem mora em um multifamily há três anos e relata a dificuldades dos moradores em resolverem problemas básicos dos serviços do prédio, algo que não deveria acontecer, visto que esse tipo de ativo é vendido ao mercado sob o conceito de possuir uma “administração profissional”.
“Eu esperava que, uma vez que não tem condomínio e nós que moramos lá não podemos tomar as decisões com base no que a gente quer, eles tinham que ter um sistema que no mínimo funcionasse. Eles precisavam no mínimo oferecer esses serviços básicos, que se espera de um condomínio que paga um valor alto por mês”, relatou. “É um modelo de negócio que já foi validado em outros países, eles trouxeram para o Brasil, mas faltaram nessa ideia do que é morar em São Paulo”.
Em meio a um cenário sem padronização, onde nenhuma ponta do segmento parece falar a mesma língua, análises de mercado são fundamentais para gerenciar e direcionar os investimentos, porém, são dificultadas pelo protecionismo injustificado das empresas em compartilhar dados, produtos e conteúdos relacionados ao multifamily. Para Giancarlo, enquanto as empresas não se moverem para tornar o mercado conhecido, ele não vai avançar.
“O produto já é desconhecido, quanto mais as empresas escondem informação, menos elas utilizam canais como a SiiLA para difundir produtos e divulgar conhecimento, e isso é pior para elas mesmas. A opacidade do mercado é prejudicial para todo mundo, só que pouca gente entende isso, muita gente acredita que esconder seu produto é o melhor caminho, mas demora para perceber o quanto a transparência é importante”, destaca.
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