De aluguéis atrasados a dívidas bilionárias: crise nas empresas pressiona o mercado imobiliário
- Inadimplência de locatária do fundo Inter Logístico expõe dificuldades que também atingem grandes redes; levantamento registra avanço de 22% no número de empresas em recuperação judicial

Dois acordos de pagamento descumpridos e mais um aluguel vencido. A inadimplência da Comercial RS, locatária de um condomínio logístico em Guarulhos (SP), chegou aos cotistas do Inter Logístico (INLG11) em fato relevante divulgado em 22 de setembro.
Os saldos pendentes dos acordos somam R$ 213,8 mil, além do aluguel de julho, cujo valor não foi informado. A empresa apresentou pedido de recuperação judicial em julho e teve o processamento autorizado pela Justiça.
O contrato representa 5,8% da receita imobiliária mensal do fundo, cuja gestora afirma não esperar impacto relevante nos resultados e rendimentos neste momento. Embora tenha dimensão diferente das reestruturações bilionárias de grandes redes, o episódio mostra como a dificuldade de pagamento das empresas alcança proprietários de imóveis e investidores. Aluguéis, áreas ocupadas e garantias imobiliárias aparecem em diferentes pontos dessa crise.
Recuperações judiciais aumentam 22%
O Brasil encerrou junho de 2026 com 6.382 empresas em recuperação judicial, segundo o Monitor RGF-BizDoc. O número cresceu 6,5% no primeiro semestre e 22% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O levantamento considera, nesse recorte, matrizes ativas e exclui microempresas, filiais, organizações não governamentais e órgãos públicos.
As causas variam entre as companhias. Nos casos recentes, aparecem despesas financeiras elevadas, mudanças no consumo e perda de acesso ao crédito. Para o mercado imobiliário, as consequências também assumem formas distintas: atraso de aluguéis, redução da ocupação e dificuldades para sustentar operações financiadas com garantias em imóveis.
Crise no varejo
A Casas Bahia apresentou pedido de recuperação judicial em 16 de agosto, informando dívidas de R$ 17,3 bilhões. A medida veio depois da recuperação extrajudicial iniciada em 2024, que aliviou obrigações, mas não encerrou as dificuldades financeiras da companhia.
Segundo reportagem do REsource, informações de mercado apontavam para um plano de fechamento de 298 lojas, equivalente a 28,7% da rede. No primeiro trimestre de 2026, o prejuízo havia alcançado aproximadamente R$ 1 bilhão.
A redução da presença imobiliária já aparecia nos galpões. Dados do Market Analytics da SiiLA mostram que o grupo devolveu aproximadamente 32 mil m² em Itajaí e Fortaleza em 2025. A ocupação de outros 17,9 mil m² em Pernambuco compensou apenas parte das saídas, deixando uma redução líquida próxima de 14 mil m².
Já o caso da Marabraz, o pedido de recuperação judicial envolve cinco empresas. Segundo a companhia, disputas societárias na família Fares provocaram a perda de acesso a garantias imobiliárias que sustentavam operações de crédito.
Entre os ativos estava o Cajamar Centro Logístico, pertencente à holding LP Bens. A varejista relatou que, após a ruptura, bancos reduziram limites, encareceram operações e deixaram de renovar financiamentos.
O empreendimento também integra sua estrutura de distribuição: a Marabraz ocupa 65,3 mil m² no condomínio. Em nota ao REsource, a empresa afirmou manter suas lojas abertas e buscar a reorganização dos compromissos para preservar os negócios.
Dificuldades também atingem alimentação
O Grupo Gennius, controlador das redes Habib’s e Ragazzo, teve o processamento da recuperação judicial deferido em 24 de agosto, com dívidas declaradas de R$ 265,2 milhões. A estrutura abrangida inclui 119 lojas Habib’s e 26 Ragazzo, além de outras empresas.
O grupo atribuiu as dificuldades aos efeitos da pandemia, às mudanças nos hábitos de consumo com o avanço do delivery e aos juros elevados. Em nota, afirmou que suas operações continuam funcionando normalmente. O caso amplia para a alimentação um cenário que já envolve varejistas e ocupantes de condomínios logísticos.
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